Valério Mesquita

11/05/2021
 
COSTUMES POLÍTICOS
 
Marcelo Fernandes é um amigo de antigas jornadas. Não é comum nos avistarmos pelos vãos e desvãos da vida natalense. Mas sempre que nos encontramos, o cumprimento recíproco é irreprimível: saudações pessedistas! Essa frase evoca o velho PSD de guerra do tempo de Túlio Fernandes, Alfredo Mesquita, Theodorico Bezerra, Lauro Arruda, Israel Nunes e tantos outros que seria difícil mencionar todos. Era o partidão rolo compressor cujo hino tinha uma estrofe assim: “PSD nunca foi nem será vencido”.
 
O major Theodorico Bezerra, seu presidente, conta Marcelo, promovia vaquejadas políticas naquele tempo a fim de aglutinar forças eleitorais e constituía a mídia rural do partido. Na região do Trairi o velho cacique tinha um boi brabo de 25 arrobas, turrão, que ninguém derrubava nas vaquejadas. E ganhou logo um apelido: PSD. Esse era o espírito dos políticos e dos militantes daquela época, tão bem realçado por Marcelo Fernandes na memorização dos atos e fatos de um mundo partidário desaparecido. 
 
De contraponto, registre-se, havia uma UDN hábil, oposicionista, vigilante com uma lanterna de popa. Na rotatividade do poder, a UDN de cima e o PSD de baixo, esse último exercia com denodo e desassombro a Oposição. E foi assim inclusive à época dos governos autoritários. Hoje, o espírito desses antepassados desapareceu. 
 
Na plenitude do regime democrático, quando elegeram um ex-metalúrgico para a Presidência da República, os partidos se esfacelaram, se estiolaram e se misturaram. Até parece um Arenão. Ou um navio com passageiros além da sua capacidade com risco de ir a pique antes de chegar ao próprio porto eleitoral.
 
Mas, política é carrossel. Longe vai o tempo do PSD/UDN. A propósito, o ex-vereador mestre Pedro Luiz de Araújo, refratário à torrente de adesões ao governo municipal, anos atrás, preveniu o prefeito: “Doutor, tantos “piriquitos” assim numa quenga não tem “mio” que chegue”.
 
E para ratificar o contraditório dos tempos políticos de ontem com os de hoje, vale recontar aquela história do banquete de Catolé do Rocha, onde o folclórico Mané Forte se intrometeu no meio de toda a ilustre família Maia, sentando-se no último lugar à mesa. As mocinhas prendadas que serviam a refeição todas as vezes que chegavam perto de Mané Forte suspendiam a tigela. E assim aconteceu com as travessas de feijão, arroz, macarrão, verduras, frutas da estação, etc. Na hora de servir a tradicional farofa todos os convivas recusaram levantando levemente a mão. Aí sobrou para o adesista eventual Mané Forte, que teve o seu prato entupido de farofa. Não contendo a indignação, Mané protestou: “Cuidado, menina, prá mim só tá chegando cereais...”. ó tempos, ó costumes...