Bia Crispim

05/03/2021
 
Jogos mortais
 
 
Em sua coluna publicada no Potiguar Notícias dia 1º deste mês, minha amiga Ana Paula Campos estampou um título um tanto quanto provocador: “Vamos brincar de matar pessoas?” 
 
Instigada com tal provocação, parei o que estava fazendo pra ler essa potência da representatividade feminina e negra do Estado. Deparei-me com uma análise sobre a saída de Karol Conká do BBB, gancho que serviu à colunista para fazer uma análise sobre o racismo e outros preconceitos institucionalizados nesse bananal (afinal, de república não temos nada!), sobre suas consequências (sobretudo para as ditas minorias) apontando ainda formas como essa estrutura racista e preconceituosa lucra com essa barbárie. 
 
Diz Ana Paula: “Apenas pessoas pretas sentem na pele o racismo cotidiano, ainda que muitas não saibam expressar ou mesmo tentem negar o fato. (...)Quem colabora para este espetáculo não está matando só Karol Conká, está matando a mim e tantes negres que estão adoecendo com tanto ataque racista. ” Ataques “simbólicos” que se materializam na vida de tantas pessoas na forma de violências concretas.
 
O título da sua coluna termina por fazer uma reflexão aprofundada não só da situação específica da cantora e sua eliminação do reality show, mas da situação do país de ontem e, sobretudo, de hoje. Não estamos “brincando de matar pessoas” na TV, no programa, virtualmente... Estamos matando seres humanos reais, em sua maioria, pessoas oriundas dos grupos acêntricos (vou usar esse termo em consonância com Ana) que sofrem com essa maldita campanha colonial de matança nacional e agora alimentada e orquestrada por esse governo irresponsável e genocida.
 
Coincidentemente, na terça, dia 02, um dia após ter lido a citada coluna, deparo-me com a cifra de 1726 mortos num único dia por COVID-19. Assombro, perplexidade, pavor, tristeza e uma terrível sensação de inutilidade me invadiram... Lembro de ter pensado no texto de Ana Paula e ter falado em pensamento com minha amiga: “É, querida, não estamos brincando de matar, não. A coisa é séria. Entramos nos Jogos Mortais.”
 
Atarefada, terminei conduzindo meus pensamentos para outras questões, até que, na manhã do dia 03, quarta-feira, eu recebo, como primeiro vídeo compartilhado por uma amiga, uma sequência de falas e fatos recortados de telejornais de todo Brasil através do portal G1 de notícias, colhidos e copilados através da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) o que, mais uma vez, me despertou a ideia de que não estamos brincando de matar.
 
“Uma travesti que foi assassinada a tiros... E uma travesti foi encontrada morta... Uma travesti foi morta a tiros... Uma travesti de 23 anos foi assassinada ontem... Uma travesti foi assassinada... Mais uma travesti foi assassinada... Nosso país ocupa a primeira posição no ranking mundial de países que mais registram casos de assassinatos e de violência contra travestis e transexuais...” era assim que o vídeo começava... e continuava com dados acerca dessa política de matança.
 
Foram registrados em 2020, 175 assassinatos de pessoas transexuais no país, uma morte a cada 2 dias, segundo o relatório anual da ANTRA. O vídeo, não para por aí... “Uma travesti de 27 anos foi morta a pauladas na madrugada de hoje na rua Minas Gerais no bairro Preventório aqui em Rio Branco... Prestem atenção, “a pauladas” e “na rua”. 
 
Os requintes de crueldade, o descaso social e a impunidade para com os agressores e assassinos banaliza essas mortes. É como se a sociedade estivesse se livrando de algum tipo de peste.
 
O vídeo, retificando algumas das falas de Ana Paula, traz dados que envolvem as questões de racismo interseccionalizadas com as questões de gênero e classe, como apontou a colunista: “56% das vítimas tinham entre 15 e 29 anos, 78% eram negras, 75% foram mortas com requinte de crueldade, 72% eram profissionais do sexo, 47% foram mortas a tiros, 72% não conheciam os suspeitos, 71% dos crimes aconteceram em locais públicos como ruas, bares, terrenos baldios, rios, parques, praias...”
 
Passei o dia inteiro pesando em como tudo isso está interligado, como toda essa necropolítica atua sobre pretos, pobres, mulheres, travestis, moradores de rua, moradores de comunidades acêntricas, como tudo isso nos afeta de formas tão avassaladoras. Sejam tais mortes causadas pela violência estrutural e estruturante desse país (eterna colônia), sejam as mortes causadas pela política de descontrole da pandemia.
 
Novamente voltei para minha rotina, e como de costume, fui ler um poema de Drummond (coisa que faço desde 2018 – alimento-me de poesia todos os dias). Qual não foi minha surpresa... O poema que se abriu para que eu lesse chamava-se FORJA do livro BOITEMPO I de 1968. E Olha só seus versos:
 
E viva o Governo: deu/ dinheiro para montar a forja./ Que faz a forja? Espingardas/ e vende para o governo./ Os soldados de espingarda/ foram prender criminoso/ foram fazer eleição/ foram caçar passarinho/ foram dar tiros a esmo/ e viva o governo/ e viva nossa indústria matadeira.
 
Fiquei surpresa! Seria mera coincidência?! Parece que não, porque fui pra cama na noite daquele dia pensando nessa necropolítica, pensando nessa política de armamento que só aumentará e banalizará a violência contra mulheres, travestis, pobres, pretos, indígenas... Fui pra cama com a notícia de um novo record, o que me fez desabar em lágrimas: 1910 vidas perdidas para a COVID-19. Porque só a violência institucionalizada nesse país não basta.
 
Fui pra cama pensando em como os Jogos Mortais estão a todo vapor... e apenas começando...