Bia Crispim

05/02/2021
 
Isolamento trans 
 
Janeiro acabou. O mês da visibilidade trans deu o seu recado. Recado esse que devemos carregar nos meses seguintes: Pessoas trans e travestis só querem ser pessoas, cidadãs, livres para ser quem querem e para disfrutar dessa liberdade sem medo de existir. 
 
Hoje faço um pequeno manifesto sobre o isolamento que tanta gente viveu/vive com a pandemia, e que nunca se deu conta que já era uma realidade de tantas outras pessoas.
 
Vamos ao manifesto!
 
*
 
Não foi preciso uma pandemia para nos jogar no isolamento.
 
Nossa solidão começa na infância/adolescência, quando, com medo de SER para o mundo, nos isolamos em perguntas, dúvidas e questões que todos reprimem e nós escondemos por medo ou vergonha. (Até quando?)
 
Nosso isolamento começa em casa, com a piadinha, com os risinhos, as ameaças de violência que sofremos, física e psicológica, e finalmente com a exclusão do seio familiar, em um momento em que, na verdade, precisaríamos de apoio e orientação. 
 
Sermos expulsas de nossos lares, sermos rejeitadas por nossa família (seja ela que formato tenha) é um pontapé inicial para toda uma vida ilhada.
 
Renunciamos à vida escolar porque a escola não quer aluno causando problema, mudando de nome, se vestindo de mulher, usando maquiagem e afrontando o sistema de machos e fêmeas. 
 
A escola da inclusão não nos inclui, mas sim, contribui para que nosso futuro, enquanto cidadãs, seja minado. A Igreja também nos rejeita, por nossa “anormalidade” e nos tira o direito ao convívio comunitário, expulsando-nos dos templos e até da fé.
 
Sem escolaridade, sem formação, não conseguimos adentrar ao mercado formal de trabalho e passamos a viver à mercê da sorte (Sorte?). Abandonadas e sozinhas, a prostituição acaba sendo, muitas vezes, um caminho, uma possibilidade de existência. 
 
Somos “adotadas por cafetinas e traficantes, iludidas por falsos amores de machos escrotos” e crescemos sem as orientações, a dignidade, as oportunidades, o carinho, o amor e a atenção que realmente deveríamos vivenciar, enquanto seres humanos.
 
Marginalizadas, prostituídas, sem perspectivas de crescimento, traficando algumas vezes, mal amadas, nos vendendo barato, convivendo com medo e com todas as incertezas de uma vida instável, nos aventurando com clientes sobre os quais não sabemos suas reais intenções, vamos construindo uma história de isolamento, de exclusão e de extermínio.
Isolaram-nos. Isolamo-nos. Formamos guetos e de alguma maneira procuramos nos defender. Existimos e resistimos. Apesar dos olhares, das risadinhas, das cotoveladas, e dos apontamentos que só as Travestis, solitárias que andam nas ruas, durante o dia sentem. (Porque só à noite a sociedade nos aceita. Porque só à noite temos o que oferecer a ela.)
 
Percebem?! Não foi a pandemia que nos isolou. (Foi) É o preconceito, a indiferença, a exclusão e a falta de empatia que nos isolam há tempos.