José Pinto Júnior

19/01/2021

 

Sobre Corvos e Vacina

Uma enfermeira negra recebe a primeira vacina contra a Covid-19 em São Paulo. O mundo civilizado comemora. Mas dois homens que deveriam elevar este importante momento se comportam como corvos. O presidente Bolsonaro e o governador Doria, ao invés de buscarem vacina para todos os brasileiros, se agridem. Tentam ganhar a narrativa em cima das mortes causadas pela tragédia da Covid-19.

Para o presidente Bolsonaro, o governador Dória é um “moleque”. O tucano “não tem moral”. Até o aconselha: “Vira homem”. Para Dória, o presidente é um “facínora”. Um “negacionista”. Sem dúvida, ambos estão certos.

Mas o que está errado? Está errado, o presidente perder a corrida pela compra de maior número de vacinas. Perdeu o time em relação a compra de insumo. Chegar atrasado em Manaus permitindo ampliação do número de mortes. Pior, tenta desacreditar a vacina e a ciência.

O que mais está errado? Está errado o governador de São Paulo atacar o presidente e forma oportunista, visto que nele votou. Está errado a antecipação da campanha presidencial. Está errado reduzir a vacina a marketing eleitoral em ano sem eleição. Está errado, não focar no aumento do número de doses necessárias para imunizar a população.

O presidente e o governador se comportam como corvos que se alimentam de cadáveres. Doria tem direto a ser candidato a presidente, mas que não use a vida e a mortes das pessoas para polarizar com Bolsonaro. O presidente também tem direito de disputar a reeleição, mas não pode e nem deve negar que o Estado brasileiro seja usado para evitar mortes. As ideias e projetos devem compor a retórica política, não cadáveres. Corvos é que se alimentam de mortos.

São duzentos e dez milhões de brasileiros. Até agora fala-se em seis milhões de vacinas. A hora é de imunização e não de marketing eleitoreiro e oportunista. A hora é de vacinar a todos e não de omissão e negacionismo tosco.