Bia Crispim

25/12/2020
 
#RESPEITEASTRAVESTIS
 
Durante a última semana, grande parte das pessoas que pertencem à comunidade trans, sobretudo aquelas que se identificam como travestis, invadiu as redes sociais com a #respeiteastravestis. Motivo!? Uma música transfóbica intitulada de “Lili”, divulgada como grande sucesso de uma dupla sertaneja.
 
Por que a música é transfóbica? Talvez  vocês queiram saber... Então, proponho uma breve observação da letra. Logo na primeira estrofe, a música diz: “Depois de um mês de namoro/Apaixonado, iludido e bobo/Dentro de um motel/Chorando arrasado/Acabei de descobrir/Que eu fui enganado”
 
Poupem-me de tanta hipocrisia, um corpo travesti não é um corpo cisgênero. Um homem sabe, sem sombra de dúvidas, que está com uma travesti. E a maioria sabe exatamente o que quer quando procura por uma de nós, sobretudo se estivermos atuando na prostituição. NÃO ENGANAMOS NINGUÉM. 
 
Essa ideia de que a travesti ”enganou” o bofe é conversa pra boi dormir e é aquela que o cara dá como desculpas aos “parças” e à sociedade, que provavelmente o recriminaria caso ele assumisse publicamente que saiu com a gata porque estava a fim e não “por engano”.
 
Em outro trecho, a música traz outra pérola. Vejamos: “Depois de uma farra embriagada/Ela se entregou/Só que ela não tinha/O que mulher tem”
 
Caso a travesti não tenha feito a cirurgia de “resignação sexual”, qual é o susto em constatar que ela é uma mulher de pênis!? Sim, MULHER. O que quer dizer que  na música, mulher é sinônimo de vagina, e não de mulher como ser e suas identidades e subjetividades múltiplas.
 
O refrão é um caso de dupla transfobia. Primeiro porque reforça a ideia de que, nós, travestis e mulheres trans mentimos sobre o que e quem somos e também por tratar uma identidade feminina usando um artigo masculino “um”. Não existe o/um travesti. Como identidades femininas somos A/UMA TRAVESTI.
 
Esse tipo de transfobia que aparece em piadas, letras de música, sketches em programas de humor, cenas de filmes é chamado de transfobia recreativa (para quem é escroto/a/e).
 
Gostaria de lembrar que TRANSFOBIA É CRIME. E mesmo que ela venha “disfarçada” em forma de música, ela não perde o que ela tem de mais perigoso: o poder de deslegitimar nossos corpos, nossas identidades, nossas relações amorosas... Enfim... 
 
E tudo isso termina em chacotas, exclusões, isolamento, violências e a mais cruel de todas as mortes: aquela que chega até nós por simplesmente existirmos e que começa quando a maioria de nós é expulsa de casa. (Talvez esse seja o primeiro sabor da morte que experimentamos)
 
A pressão feita pela comunidade trans através da #respeiteasgravestis parece ter surtido algum efeito, pois a dupla, além de ter se retratado publicamente, ainda fez uma nova versão para “Lili”.
 
Ei-la: “Depois de um mês de namoro / aconteceu o nosso love gostoso / dentro do motel realizado / descobri toda a verdade / e nem estou preocupado. / Agora entendo porque ela demorou para fazer amor / mas pra mim, amor, sexo não tem gênero e cor. / Falei pra ela, bebê, fica tranquila / você pra sempre será minha menina / Oh, Lili, oh, Lili / não precisa esconder de mim / Oh, Lili, oh, Lili / o amor da minha vida é uma travesti.”
 
Agora “Lili” pode viver seu romance feliz sendo a travesti que é. Apesar de sabermos que no mundo além música, poucas  mulheres trans e travestis vão conseguir viver suas relações amorosas e afetivas em paz, sem a truculenta intervenção da sociedade. Mas por enquanto é um pequeno passo rumo àquele mundo que nós, travestis e mulheres trans sonhamos. Nem que seja, por breve tempo, o mundo de Alice.