Cefas Carvalho

23/12/2020
 
Não atenda o celular toda hora, aconselhava Shakespeare
 
 
Nos primórdios da Internet era comum a disseminação de textos edificantes ou líricos de gênios como Clarice Lispector ou Caio Fernando Abreu. A princípio a ideia e a intenção pareciam maravilhosas; divulgar a literatura de qualidade produzida no país nas recém-criadas redes sociais. 
 
O problema é que na teoria seriam divulgadas as obras dos gênios. Mas, na prática o que se viu foi um manancial de textos apócrifos, frases clichê e poesias edificantes atribuídas justamente a escritores conhecidos pela dureza e mau humor como os já citados Clarice e Caio Fernando e de outros tantos igualmente melancólicos e amargos como Fernando Pessoa, José Saramago e João Ubaldo Ribeiro.
 
A internet sempre foi terreno fértil para textos apócrifos, aqueles sem uma identificação, anônimos mesmo, mas que podem ser colocados na conta de qualquer um, dependendo da boa vontade, má fé ou ingenuidade de quem os decida creditar autoria.
 
Essa política, que vitrou febre há alguns anos, teve uma diminuição e vez por outra volta à tona, ganhou força graças a uma tendência quase natural dos internautas: a de comparilhar informações. Sem necessariamente averigua-las. Sejam verdadeiras ou não. Desta forma, corríamos até o risco de eleger um presidente graças ao compatilhamento de notícias falsas (ops).
 
Recordo de uma vez, há anos, que uma amiga poeta me mandou versos edificantes mas algo banais como sendo de Cecília Meireles, autora que adoro e cuja obra já li quase toda. Delicadamente registrei para ela que Cecília escrevia versos com rimas próprias e uma métrica não exatamente rigorosa, mas, com um sistema, além da musicalidade. A amiga respondeu de bate pronto: "Pode não ser da Cecilia, mas, que é bonito, é!".
 
Compartilhar textos apócrifos está longe de ser o mais grave dos defeitos ´  internéticos` em tempos de tanto discurso de ódio e agressividade. Mas, ao mesmo tempo, é algo facilmente evitável posto que os sites de busca como o Google são acessíveis e rápidos.
 
Por lembrar de histórias curiosas sobre o tema, em um grupo de e-mail de amigos (no período pré-Zap) um deles postou um texto edificante cheio de conselhos para o bem viver (alimentação, beber água, tomar sol etc) que no final, dizia: "E evite atender o celular a toda hora, você não precisa falar com todo mundo". No fim, o nome do - suposto - autor do texto. William Shakespeare.
 
Mas, espera aí, o bardo inglês nasceu em abril de 1564, lá na bela Stratford-upon-Avon, na Ingleterra, e morreu também em abril. Mas de 1616. E o telefone, avô do aparelho celular, foi inventado e patenteado pelo também britânico Alexander Graham Bell em fevereiro de 1876. Celulares então, só viemos a ter em mãos nos anos 2000, quatro séculos após Shakespeare escrever sobre ele em seus conselhos (risos).
 
Pois é, não acredite em tudo que lê na Internet. E quando não fizer muito sentido, perca uns dez minutos para pesquisar. Tudo bem que essa é a era da pós-verdade, mas achar que o taciturno e ateu José Saramago, autor de livros terríveis como "O evangélio segundo Jesus Cristo", "Caim" e "Ensaio sobre a cegueira" escreveu - como já li nas redes - que "um abraço carinhoso é a melhor coisa do mundo", aí, é dose para leão.