Bia Crispim

11/12/2020
 
A viajante
 
 
Da janela do ônibus, vento seco na face, olhos entreabertos de sono, a viajante absorvia as paisagens do Sertão. 
 
O que via era uma terra seca. Era já verão, o solo acinzentado, as folhagens, antes verdes, agora ocres. E aqui ou acolá, uma jurema resistente. Ossada daquilo que um dia fora uma vaca leiteira jazia no acostamento. Urubus pairavam mais à frente – outra vítima do calor, decerto.
 
E o céu de um azul quase transparente se confundia com as nuvens brancas espaçadas – torres que a infância ainda projetava desenhos.
 
Voltava pra casa. Era Natal e a família estaria lá, junta mais uma vez. Sua cabeça era um turbilhão de pensamentos desconexos, fragmentados. Pensava nas pessoas, cenas, vivências e relações que havia criado com cada cidade que passava e com a própria estrada. Pensava na família, nos amigos, no trabalho e no dever cumprido de mais um ano.
 
Pensava nos seus alunos – era professora a viajante – e no futuro que os aguardava.
 
O Sertão fazia aquela mulher pensar demais. Talvez fosse o calor que produzia vertigem, ou que a enchia de fogo e vida, como lenha no fogão da avó. 
 
Ela via passar os mandacarus resistentes, o carcará resistente, o seridoense resistente. Um flamboyant verde tão florido de vermelho lhe dizia: - Resista, pois somos feitos de fibra.
 
Quanto ela não tinha daquele lugar e de todas as pessoas que cruzaram sua vida . Um pouco de cada um. Muito de tudo.
 
Possuía a força do Sertão, a vaidade da sertaneja, a sabedoria eternizada nas serras. Suas emoções se manifestavam em ciclos de inverno e seca, de frio noturno e calor diário intenso. Possuía o mistério místico daquela terra que havia lhe parido e sentia-se parte da grande família do Seridó. Era parente de todos e de todo lugar.
 
As madrugadas reservavam-lhe sonhos, sonos tranquilos, pesadelos e banhos de luar. Encontro com os amigos e festa. Reservavam-lhe sexo, trocas de olhares e coisas ditas proibidas. Segredos e delírios.
 
Os rios e lagos secos despertavam-lhe a saudade das águas e as mangueiras floridas, carregadas, traziam-lhe de volta imagens da infância. Os cheiros bons ou ruins reportavam-lhe a tantas histórias. E como as tinha pra contar. 
 
Histórias que os livros lhe ensinavam. Histórias que os homens lhe introduziam. Histórias que as mulheres lhe confessavam. Histórias vividas e planejadas. Suas, de uns e outros. A vida e a estrada ainda construíam-nas, como se não tivessem fim. E muitas de milhares de suas histórias ainda estavam por vir.
 
Ela não era só uma viajante. Era uma bagagem. Como mala de um caixeiro eletrônico, cheia de tantas surpresas e causos, aberta às possibilidades, todas.
 
Era assim. Plena com a vida que lhe fora dada. Feliz com a viagem que fazia, e com sua viagem diária – essa grande jornada, que nem a morte consegue extinguir – pois a essência e a memória são as linhas que a costuram.