Ana Paula Campos

30/11/2020
 
Padrão de beleza eurocêntrico e a autoestima da mulher negra
 
 
Ano passado eu realizei uma fala na UFRN  e tive o prazer de conhecer meninas incríveis com histórias de dor e superação. Uma dessas vozes é Juliana Santiago que tem crescido visivelmente e despertado cada vez mais para a escrita. É com imensa alegria que divido com vocês as reflexões de uma mais nova. 
 
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Juliana Santiago
 
 
Muitas de nós já escutamos e até reproduzimos a frase "não elogie minha aparência, elogie meu cérebro", mas nem sempre ela faz sentido. É muito fácil dizer que não quer mais alguém elogiando sua aparência quando você já se encaixa em um padrão de beleza que a sociedade impõe e elogia (branca, cabelo liso, corpão, etc). Mulheres que não se encaixam nesse padrão, mesmo que sejam bonitas, possuem na maioria das vezes sua autoestima constantemente abalada pelo simples fato de terem sido ensinadas desde criança que bonita mesmo é apenas aquela famosa e modelo “padrãozinho”. 
 
Me incluo nisso também, por mais que achem que eu tenha sempre a autoestima elevada, isso é um processo constante pra mim e passo por bastante oscilações. E falo isso em especial sobre as mulheres negras. Enquanto algumas mulheres que se encaixam nesse padrão de beleza questionam sobre os elogios recebidos, mulheres negras possuem sua aparência constantemente criticada. É muito fácil dizer "não elogie minha aparência" quando sua aparência sempre foi elogiada, quando você não sofre bullying na escola por causa do seu cabelo, seu corpo, quando você não é constantemente trocada afetivamente por mulheres que sempre possuem esse mesmo padrão exigido, quando você sai com as amigas e sabe que não vai ser a única que não será chamada para dançar. 
 
Elogie a aparência das mulheres sim, principalmente das que não se encaixam nos padrões. Só uma pessoa que passou a vida tendo sua aparência criticada, que todas as vezes que ia à um salão de beleza escutava o(a) cabeleireiro(a) tentando convencê-la de que seu cabelo só seria bonito caso alisasse, sabe o quanto um elogio ajuda neste nosso processo de amor próprio. 
 
Ser mulher negra e se sentir bonita é um ato revolucionário. E é também um processo longo, já que desde crianças tentam nos enfiar goela abaixo um padrão de beleza eurocêntrico. Quando eu era criança, por exemplo, todas as minhas bonecas, princesas dos desenhos que assistia, quase todas as meninas e mulheres protagonistas na TV, eram brancas. Atualmente podemos presenciar o surgimento de representatividades negras nesses espaços, e isso é de extrema importância para trabalharmos a autoestima também das crianças. Claro que elogiar a inteligência é muito mais importante, mas elogie e valorize também a autoestima da mulher negra, pois é um processo difícil enquanto vivemos em uma sociedade com um padrão de beleza eurocêntrico. 
 
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