Wellington Duarte

23/11/2020
 
A caça ao negro continua, mas não existe racismo estrutural
 
 
Talvez por termos apenas 5,2% de pretos ou “gente de cor”, como diz o vice-presidente Mourão, não vemos manifestações mais visíveis por aqui, com relação à luta contra o racismo estrutural que o mandrião Bolsonaro não reconhece e que o presidente da Fundação Palmares, o “negro de senzala” , Sérgio Camargo, que chegou ao cargo por puxar o saco da “famiglia” Bolsonaro, diz ser “coisa da esquerda”.
 
Talvez, mas apenas talvez, pelo fato de que 52,8% dos potiguares terem se declarado “pardos”, no Censo de 2010, não se sente “negros” ou “pretos” e situam-se numa fronteira cinzenta em que os comentários de que “você nem é tão negro assim” não são estranhos. E o potiguar “pardo” talvez não se identifique com a luta dos movimentos sociais contra o racismo estrutural.
 
Na verdade, segundo Bolsonaro, não existem “raças” e sim “homens bons ou maus”, o que me fez lembrar de como o nazismo seduziu povos árabes e até africanos, tornando-os aliados mesmo que na Alemanha se a pessoa fosse negra estaria no grau inferior do que eles chamavam de “civilização ariana”. No BraZil de Bolsonaro não importa que os números digam que o fato de ser negro seja 3 vezes mais perigoso para os jovens negros do que para os jovens brancos, quando confrontados com as forças de segurança.
 
O “pardo” parece evoluir para o negro, já que o primeiro, construção histórica vinda de Portugal, deitou raízes com a “mágica” da mestiçagem e da tal “democracia racial” que muitos intelectuais abraçaram sofregamente para amenizar um país que só acabou com a escravidão, em 1888, por que não era mais rentável manter o escravismo. 
 
O fato de que, a cada dez brancos que morrem vítimas da Covid-19 no Brasil, morrem 14 pretos e pardos, que em sua soma, representam os brasileiros negros. Os dados são resultados de uma análise da reportagem da CNN com base nos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde, parece não chamar a atenção dos “pardos” potiguares.
 
A morte brutal, dentro um supermercado em Porto Alegre, o Carrefour, com crueldade, de João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, foi apenas mais uma e em breve veremos outra notícia de morte de um negro pelas mãos de forças de segurança ou privada.
 
A música “Haiti”, de Caetano e Gil, de 1993, bem atual, mostra que a desigualdade transforma os brancos pobres em “quase negros”, alvos da repressão estatal, mas os negros pobres são menos que negros, são a escória, o “bandido”, o “safado”.
 
Quantos vezes você, meu caro pardo, ouviu dizer que o negro é “preguiçoso” que “não trabalha porque não quer”? 
Eu já fui “pardo”, hoje sou negro.