Bia Crispim

13/11/2020
 
O papa não é tão pop assim
 
 
Quando o filme “Francesco”, sobre a vida e obra do papa Francisco, dirigido por Evgeny Afineevsky estreou como parte do Festival de Cinema de Roma, ocorrido entre 15 e 25 de outubro desse ano, boa parte da comunidade LGBTQIA+ entrou em polvorosa. O motivo para o alvoroço foram algumas das falas do Santo Padre, como:
 
"Os homossexuais têm direito a formar uma família" 
"Eles são filhos de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deve ser excluído ou forçado a ser infeliz por isso."
"O que temos que fazer é criar uma legislação para a união civil. Dessa forma, eles ficam legalmente cobertos."
 
Porém, essas declarações progressistas não assinalam que os LGBTQIA+ são muito bem-vindos à Igreja. Por mais que Francisco já tenha se posicionado em outros momentos, inclusive, e até incentivado a participação de homens gays a frequentá-la, as portas ainda estão fechadas para a maioria de nós... 
 
Homens gays e mulheres lésbicas ou pessoas bissexuais, com sua “passabilidade”, podem até estar começando a serem vistos com uma certa tolerância pelo Vaticano, mas o que dizer do restante das letrinhas? Onde fica o discurso do direitos à família, ao acolhimento e à tolerância para os transvestigêneres? O que a Igreja e o Papa têm a dizer sobre os TQIA+?
 
Infelizmente, no que se refere a nós, pessoas transvestigêneres, o discurso é outro. A ideia de pessoas que se autoindentificam como ‘intersexual’ ou ‘transgênero’, ou seja, que sinalizam uma ideia (para a sociedade conservadora e tradicional) ambígua de masculino ou feminino, “não reconhece a ordem da criação”, diz o Papa numa entrevista de 2015, e ainda faz uma comparação infeliz dessas PESSOAS com a manipulação genética e as armas nucleares, pautas sobre as quais a Igreja condena.
 
Esse discurso, por sinal, reforça, mais uma vez, a rotulação de que a pessoa trans, de que a travesti é uma aberração da natureza e, portanto, suas vidas não têm relevância, nossa mortes são uma higienizaçãoda do mundo, e como afrontamos a CRIAÇÃO e o CRIADOR, nos é retirando o direito à nossa HUMANIDADE, que a Igreja parece não reconhecer.. 
 
Enfim, o Papa não é tão pop assim. Ele ajuda a segregar, ainda mais, com seus discursos, nossa comunidade. Se por um lado (LGB), ele se mostra progressista e abre um espaço de acolhimento e compreensão, por outro (TQIA+) ele destila um discurso corrosivo e letal. 
 
Espero que, em algum momento, não só ele, mas a grande maioria das pessoas possa nos compreender e entender para, assim, nos aceitar como seres humanos. Não transgredimos as leis naturais, pelo contrário, vivenciamos um processo de transições e transformações que a própria natureza nos ensina. Já viu de onde saiu a borboleta?!