Eliade Pimentel

29/10/2020
 
O dia em que conquistei a lua
 
De vez em quando eu falo sobre a (des)construção dos nossos sonhos, que podem ser simplesmente esquecidos – sem significar necessariamente frustração – ou concretizados. E nesse raciocínio, eu tenho realizado diversas coisas a ponto de me sentir cada vez mais eu mesma. Foi assim que almejei subir o Pico do Cabugi, situado na cidade de Angicos, tido como um vulcão adormecido, apesar de que há controvérsias sobre isso. 
 
Mas, não há dúvidas sobre sua altura: 290 metros a partir de sua base. Ultimamente, tenho passado bastante pela BR-304, a caminho da região Oeste e Alto Oeste, devido ao meu trabalho de repórter. De longe, ao menor sinal do pico, já me batia aquela curiosidade. E lá em cima, no cume, como será? No Rio Grande do Norte, existem serras mais altas, porém, o Pico do Cabugi é muito emblemático. Por isso me bateu uma instiga muito forte. 
 
O historiador Lenine Pinto (in memorian), por exemplo, o apontou como sendo o motivo do “terra à vista” do “descobrimento” do Brasil, e não o Monte Pascoal, na Bahia, como aprendemos nos livros de História. Teria sido a terra potiguar avistada daquela caravela? Não vamos saber, pois existem teorias mais fortes para derrubar a tese do meu amigo Lenine. Quando eu estava em início de carreira, fiz amizade com ele e adorava conversar sobre a sua “Reinvenção do Descobrimento”.
 
Como eu gosto muito de estar em contato com a natureza, fico atenta aos roteiros divulgados pelas agências de ecoturismo, tendência cada vez mais forte, e me deparei esses dias com uma proposta de trekking com pernoite no pico. Eu não pensei nas dificuldades e no grande desafio que seria fazer a árdua trilha de quase 3 km, ladeira acima. Eu só pensava na maravilhosa experiência que deveria ser estar mais perto do sol e das estrelas, num espaço super reduzido e extremamente remoto. 
 
Visto de longe, eu costumo dizer que o cume do Pico do Cabugi parece uma rodilha, que é aquele trançado de pano que as pessoas colocam na cabeça para carregar peso. Tem até um ditado: quem não pode com o pote, não pega na rodilha. Pois, eu nem pensei se eu podia com o pote, mas almejei pegar a rodilha sim. Ou rudia, como se fala no Nordeste. 
E num belo sábado, eu acordei com toda a disposição e coragem que eu tirei não sei de onde, coloquei roupa de frio na mochila, arrumei o farnel com comida e água e fui encontrar meus colegas aventureiros, incluindo o meu companheiro habitual dessas loucuras chamadas esportes outdoor. Ou, noutras palavras, viver livremente, superar obstáculos naturais e desafiar suas condições físicas. 
 
O sol quente, o medo de comer algo e passar mal na trilha, a apreensão com a possibilidade de levar excesso de peso, tudo isso passou pela cabeça e nada disso freou meu entusiasmo. Até porque, logo no início, um dos colegas tocou no assunto “levar um vinho” e me animei mais com o propósito da turma, que começou a dar sinais de que não é um grupo que encara esse tipo de atividade pura e simplesmente como um esporte, mas como um estilo de vida. 
 
A cada diálogo, fomos nos entrosando, algumas pessoas se conheciam, todas as dicas e dúvidas foram tiradas, até que o dia chegou e lá fomos nós. O grupo tinha 18 pessoas: a turma de aventureiros e dois guias. Um deles nos explicou como seria o percurso, falou das paradas e até como deveríamos ingerir água, para não sofrermos desidratação. Começamos a subida. 
 
Parte do caminho é como uma trilha na caatinga, como eu já havia feito, sendo que com muito mais pedras no caminho. E tome subida. A outra parte, praticamente metade da trilha, é o que podemos chamar de pedras sobre pedras. Nesse trecho, o guia nos disse que seria a “escalaminhada”. Fiz várias paradas, além das paradas oficiais, refresquei-me da forma como ele disse, respirei e joguei o ar para fora, para não me sentir sufocada. 
 
Tive medo de não conseguir alcançar o cume, mas em nenhum momento pensei em desistir. Claro que eu me questionei diversas vezes – não só eu, o povo todo – o que estou fazendo aqui, onde estava com a cabeça quando inventei essa história de subir o Pico do Cabugi. Mas, olhava para cima e pensava: eu vou conseguir. 
 
A subida foi árdua, é fato. Superar medos e dificuldades será sempre o que nos move a fazer as trilhas ecológicas. Sendo que o que me deu mais gás foi realizar um sonho. O sonho de conquistar um pico que significa tanto para a história do povo potiguar. Que é considerado um fenômeno geológico. É ou não é um vulcão adormecido? Que já nominou tantas coisas em nosso estado: sistema de comunicação, marca de produtos alimentícios, nome de estabelecimentos comerciais etc. 
 
Conquistar o Pico do Cabugi foi muito mais do que superar meus limites físicos. Estar lá em cima, perto do sol e das estrelas, sentir o vento fresco de quem está a 590 de altitude (de acordo com o nível do mar) e ter feito coisas simples que tanto amo, como namorar, beber vinho, fazer novas amizades e dar gargalhadas, foi tão especial que se tornou, com toda a certeza, uma experiência até agora sem precedentes. 
 
Eu que gosto de conhecer e frequentar tantos picos legais, tive o privilégio de dormir e acordar, literalmente, no pico. E me senti, naquele ambiente rochoso, vendo a névoa no horizonte, como se eu fosse parte de um filme de ficção científica e tivesse conquistado a lua.