Ana Paula Campos

26/10/2020
 
Amar é um ato político
 
Sempre tive uma vida pública antes mesmo de ser uma figura pública. Quem já me acompanhava nas redes sociais testemunhou os afetos e desamores que vivi pelo caminho. Nos últimos anos passei a me reservar mais em uma tentativa de não meter os pés pelas mãos, e há exato um ano e dois meses decidi parar de buscar afetos em braços alheios e acolher meu próprio coração. Hoje, quando olho para trás, não posso responsabilizar meus ex-parceiros. Eu simplesmente não sabia quem eu era, como poderia saber o que buscava e filtrar o que me faria bem? Apenas quando resolvo fazer um retorno de volta para casa, reconheço-me negra e aprendo uma lição valiosíssima: AMAR É UM ATO POLÍTICO!
 
O ocidente nos informou, por meio de sua filosofia branca, que razão e emoção não estão conectadas. Amar, casar e ter filhos/as é compulsório neste país. O racismo determinou quais corpos mereciam carinho e quais são considerados belos e desejáveis. Não, querides, nossas escolhas afetivas não são acaso do destino. Aprendemos a buscar realização amorosa com um/a parceiro/a branco/a. Príncipes e princesas nunca foram racializados/as nos contos-de-fadas que líamos quando criança. 
 
Quando pensamos a condição da mulher negra, isso é ainda mais cruel. Nosso preto velho, Franz Fanon, na obra Pele negra, máscaras brancas, alerta que um homem branco dificilmente terá respeito por uma parceira negra. Outro mais velho, Joel Rufino dos Santos, revelou ter sido atravessado pelo racismo e pelo machismo quando, em um artigo, compara mulheres a carros e diz ser natural, quando um homem negro acende socialmente, substitua o Fusca (mulher negra) pelo Monza (mulher branca). Sofremos com a tríplice opressão: o racismo, machismo e o sexismo, como já advertia Lélia Gonzales.
 
Homens negros precisam rememorar a campanha do Movimento Negro Unificado, da década de 70, que instigava: “Reaja à violência racial: beije sua preta em praça pública”. Caminhando na contramão da campanha, o que a realidade nos diz é que mulheres negras servem para foder, mas não para casar. Cuidamos, mas não temos direito ao cuidado. Ao menos é o que querem que acreditemos. Rompi com isso quando entendi quem eu era, compreendi quem eu era e reconheci meu valor! Conquistei o respeito e a admiração das pessoas. 
 
Mas será que só as mulheres negras sofrem com isso?
 
E os homens negros? Como ficam?
 
Em uma sociedade racista, patriarcal e machista, nossos parceiros são cobrados diariamente de serem os provedores do lar e ativos sexualmente. Não há escapatória! Nós, que tivemos mais acessos que nossos irmãos negros, podemos cair em uma armadilha sutil: acreditarmos que somos superiores ao irmão que executa uma profissão não valorizada socialmente, abandonar o companheiro quando esse é preterido no mercado de trabalho pela sua cor, ou quando não acompanham nossas leituras e escrita rebuscada. Esses corpos pretos também são “amados” em sigilo. 
 
Relacionamentos inter-raciais existiram e existem. Não estou negando ou cancelando esse fato. Afinal, binarismo, isto ou aquilo, é coisa de branco. Eliza e Abdias que o digam. Mas hoje escolhi um preto/indígena que também escolheu caminhar ao meu lado. Reconheço sua beleza, suas habilidades, sua ancestralidade nobre. Juntos, além de cuidarmos das nossas feridas, estamos passando uma mensagem potente: pretos e pretas podem se amar e ser felizes e, de quebra, derrubar o sistema.
 
Nossa relação pode não vingar? Possivelmente, como qualquer outra, mas lhes asseguro, senhoras e senhores, esse cruzo afetivo se deu aos pés de Exu e ele é o dono do nosso caminho. Se ao final da jornada prevalecer apenas a nossa amizade, ao menos saberemos que lutamos o bom combate, juntes. 
 
Sigamos, Taangahara (Fábio de Oliveira). Nosso amor está fazendo a revolução!