Andreia Braz

19/10/2020
 
Uma manhã literária
 
 
 
Eu não nasci rodeada de livros e, sim, rodeada de palavras.
                                                                              Conceição Evaristo
 
 
Jamais imaginei que fosse participar de um evento literário presencial durante a pandemia da Covid-19. Aliás, uma das atividades de que mais sinto falta são os eventos literários. Acho que o último evento de que participei foi em janeiro, na Livraria Manimbu, um bate-papo com os jornalistas e escritores Osair Vasconcelos e Antônio Melo, mediado por Aluísio Azevedo, ativista cultural e escritor, responsável pela livraria. Foi uma agradável surpresa reencontrar meu amigo Osair e conhecer um pouco do trabalho de Antônio Melo, autor de dois romances: “A Vingança” (Z Editora, 2018) e “O diário das folhas mortas”, este recém-publicado pela Amazon. A Manimbu é fruto de uma parceria entre a Fundação José Augusto e a organização Unilivreira. 
 
O evento aconteceu na última sexta-feira, em uma área aberta do Colégio Marie Jost, atendendo a todas as recomendações dos protocolos de biossegurança. O bate-papo sobre crônica fez parte de uma atividade idealizada pela equipe de Língua Portuguesa do colégio. Há alguns dias, a professora Ana Catarina trabalhou algumas crônicas nossas com os alunos da 1ª e da 3ª séries do ensino médio e um dos momentos da atividade foi responder perguntas dos alunos sobre os textos estudados em sala de aula, além de outras questões relativas à nossa produção literária, aspectos biográficos e temas afins.
 
Fiquei encantada com o lugar desde a entrada, quando percebi que se tratava de uma área cercada de natureza e muitos espaços de convivência ao livre, o que considero um modelo ideal de escola. A maioria delas lembram prisões. Conhecimento e disciplina também combinam com liberdade. Afinal, “disciplina é liberdade”, como diz Renato na canção “Há tempos”. Quem dera todas as crianças e jovens tivessem a oportunidade de estudar num lugar daquele. 
 
Voltemos a minha chegada no Marie Jost. Conforme combinado, cheguei um pouco antes do horário da aula e fiquei aguardando a professora em um local bastante agradável, uma espécie de jardim com bancos de madeira pintados e contendo frases bonitas/poéticas. No meu banco estava escrito: “A felicidade está nas coisas simples”. Aquilo era o prenúncio de uma manhã feliz, de uma manhã inesquecível. 
 
A atividade foi resultado de um trabalho desenvolvido em equipe. Um trabalho que se diferencia, também, e principalmente, por discutir obras de autores potiguares, tantas vezes desprestigiados em nossa terra e ainda tão pouco conhecidos da maioria da população, que deveria começar a conhecê-los ainda na escola. E a Escola Marie Jost tem feito um trabalho exemplar nesse sentido, capitaneado pela equipe de Língua Portuguesa, formada por Ana Catarina Fernandes, Felipe Franklin e Raquel Brito.
 
Além de abordar minha trajetória como escritora, tive a oportunidade de dialogar com eles sobre o ofício do revisor de textos, atividade que exerço há uma década, tendo começado na Editora da UFRN como bolsista e passado por diversos setores da universidade, primeiro como bolsista e depois como terceirizada, onde continuo trabalhando. Aliás, agradeço à professora Ana Catarina por ter solicitado que eu inserisse na palestra a abordagem sobre minha atuação profissional. Os alunos se mostraram bastante interessados e fizeram diversas perguntas sobre o processo de trabalho do revisor de textos, mas a melhor parte foi perceber o encanto deles perante os exemplares que levamos para expor no dia de nossa conversa. Dentre os livros que revisei, uma média de 90 títulos, dos mais diversos gêneros, estavam obras de Américo de Oliveira Costa, Ana Cláudia Trigueiro, Antônio Melo, Câmara Cascudo, Conceição Fraga, Constância Lima Duarte, Diulinda Garcia, Luís Carlos Guimarães, Maria de Fátima Medeiros, Marivaldo Teixeira, Nelson Patriota, Núbia Rodrigues, entre outros. Dentre outras coisas, falamos sobre o processo de edição de livros, revisão de textos acadêmicos e normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Destacamos, ainda, a importância da disciplina, da ética e da pesquisa constante para desenvolver um trabalho de qualidade.
 
Encerramos o evento com muita alegria e com o desejo de que o momento pudesse se repetir em outro contexto. Um contexto que nos permitisse dar um abraço caloroso em cada um deles, vê-los sorrir sem máscara e reforçar a alegria daquele encontro e daquela manhã de afetos e partilhas literárias.
 
Após o evento, permaneci um tempinho conversando com algumas alunas e fiquei encantada com o interesse delas pelos livros ali expostos. Fiquei fascinada, também, com o amor de Sofia Falcão pela literatura potiguar e seu desejo de continuar desbravando esse universo tão rico. Ela me contou que havia feito um trabalho sobre Nísia Floresta recentemente e já conhecia um pouco da obra de Zila Mamede.  Quando perguntei como surgiu o interesse pelos autores potiguares, respondeu que “foi num livro de Tarcísio Gurgel”, onde estudou “a arquitetura, a história e a cultura do RN”. Trata-se do livro “Introdução à Cultura do Rio Grande do Norte”, de autoria de Tarcísio Gurgel, Vicente Vitoriano e Deífilo Gurgel.
 
Além da receptividade da escola e da atenção dos alunos, dois momentos especiais ainda estavam por vir: o almoço com Ana Catarina no refeitório do colégio e a visita à biblioteca, onde pude desfrutar de uma conversa edificante e otimista com a bibliotecária da instituição, Jovita Granze, que muito me ensinou sobre a atuação do bibliotecário escolar e destacou o trabalho do Marie Jost no tocante à formação leitora de seus alunos. Jovita faz um trabalho brilhante na instituição e me falou sobre algumas das ações desenvolvidas na biblioteca. 
 
Ademais, não posso deixar de mencionar o mimo com que fui agraciada após o evento, uma caneca sustentável com a logomarca da escola. Detalhe: amo canecas! Tenho duas de coruja que ganhei da minha amiga Jarlene Lima que são o meu xodó. Coincidentemente, o presente também foi recebido após uma palestra sobre crônica na escola estadual em que Jarlene atua como professora de Língua Portuguesa.
 
Com o coração repleto de alegria e esperança, saí da escola com uma certeza: escrever é algo que dá sentido à minha existência e o que desejo fazer até o fim dos meus dias. Essa reflexão, aliás, me fez lembrar uma declaração de Clarice Lispector: “E nasci para escrever. A palavra é meu domínio cobre o mundo”.