Ana Paula Campos

19/10/2020
 
Eu fui a professora de Geni 
 
 
Faz alguns anos que estou em processo de descolonização da mente e com isso tenho despertado para as questões raciais que me atravessam. Passei a ler mais literatura negra e foi durante a leitura do conto Metamorfose, de Geni Guimarães, no livro Leite do Peito, que algumas dores me revisitaram. Dor de consciência.
 
A narradora é uma Geni ainda criança, relatando com ingenuidade e doçura as experiências vividas no seio familiar e no ambiente escolar. Aqui iniciava minha reflexão. Era uma aula sobre a abolição da escravatura e, como de costume — e como não poderia deixar de ser —, dia de grandes homenagens para a grande redentora, a Princesa Isabel. Emocionada, nossa menina aproveitou suas habilidades para escrever um versinho para aquela considerada uma santa. Mas a lógica ocidental é simples. Para que exista uma heroína, é preciso que haja a quem salvar. E foi assim que, durante a aula, a professora apresentou os escravos do Brasil. Negros e negras aprisionados em sua selvageria e pouca inteligência.
 
Diante do exposto, a turma observava com atenção a pequena Geni. Alguns, com atitude de complacência diante daquela que descendeu de pessoas subalternas; e outros, aproveitavam para tripudiar e ridicularizar a negrinha de cabelo de Bombril. O conto segue revelando como a palavra, entidade de poder, pode ferir e violentar. Revela uma menina que, como defesa, envergonhou-se da sua cor e sofreu, como tantos de nós, em silêncio.
 
Fechei o livro e chorei. Aquela professora era eu. Não que eu tenha, durante minhas aulas, enaltecido a imagem da outra, mas na minha ânsia de despertar o sentimento de compaixão na minha turma, enveredei por uma narrativa dramática de dor e sofrimento pós-escravidão. Não havia África antes disso. Não sendo negra, falava com distanciamento daqueles que sofriam. Eu não tinha leituras, não tinha pesquisas. Então a minha narrativa partiu da colonização. 
 
Lembro-me de Natã, negro retinto que, após a exposição, encolheu-se na cadeira e tentava negar qualquer tipo de relação com aquele povo escravo enquanto a turma insistia “Olha, Natã, parece com você”. Lembro da aflição dele. Olhar de desespero como quem quer fugir para outro lugar; para longe de tudo aquilo. As outras crianças eram negras em sua maioria, mas o colorismo não as deixava se verem como tal. Ali estávamos eu, a profissional de pedagogia morena e uma criança retinta. Quantas Genis e Natãs vamos matando ao longo da nossa vida?
 
É preciso honestidade para reconhecer que, por anos, nós educadoras/es colaboramos para a manutenção desse regime racista excludente. Eu tinha boa intenção. A maioria de nós tem, mas isso não basta. É preciso que reconheçamos que somos atravessados pelo racismo, e que foi essa estrutura que moldou nossa forma de ser, estar e ver o mundo. É preciso ir além das leituras de pseudointelectuais brancos que tinham/tem todo interesse na permanência da falácia da supremacia racial, e buscar novos caminhos. O desafio é enorme. Descolonizar a mente é apenas o primeiro passo. É necessário e urgente conhecer a história daqueles que foram os pioneiros de boa parte do que conhecemos hoje. Reconheçamos a sua nobreza. Para além disso, educadoras /es devem repensar seus planos de aula e materiais didáticos. Não adianta um discurso bonito quando atividades e posturas estão reforçando estereótipos.