Eliade Pimentel

08/10/2020
 
Deixe a culpa escorrer no ralo do banheiro e seja leve
 
Aquela sensação que acompanha muita gente. A chamada culpa cristã. Você pede um favor a alguém, a pessoa não pode fazer e te dá mil e uma explicações, mesmo você tendo deixado claro que tudo bem, que está tranquilo. Ou, outra coisa que acontece muito, é você oferecer algo a alguém e a pessoa achar que é por conveniência e não aceitar, achando que está abusando da sua boa vontade. Ou se aceitar, ficar se culpando achando que abusou demais. 
 
Da minha parte, eu sempre digo que “curei” minha culpa cristã na terapia. Ma non tropo. Aqui e acolá me pego remoendo um assunto que já deveria ter ido pro limbo do esquecimento. Como por exemplo, uma certa vez que estraguei o leite de saquinho porque não tinha geladeira e uma vizinha perguntou: “por que você não compra leite em pó”. E eu me pego pensando nisso várias vezes. Por que não pensei nisso? Fiz a menina ficar sem leite. Ela mesma nem tem ciência disso, já está uma adolescente, linda e saudável.
 
De uma maneira geral, sou bem resolvida. Se você diz que está tranquilo, eu embarco na oferta, sem meias palavras, sem senões nem porquês. Sem culpa ou ressentimento. Mesmo que muitas vezes eu tenha aceito o que a pessoa me ofertou e depois fui mal interpretada, julgada. Mas, geralmente concluo que não é problema meu. Certa vez, em São Paulo, minha amiga me levou ao shopping e falou muito empolgada dos tacos mexicanos. Aquilo não matou minha fome e eu aceitei a pizza de um rapaz que estava com a gente. 
 
Era uma pizza brotinho, dividida em quatro partes, e peguei um quarto da mesma. No fim de semana, fomos ao clube de uma cidadezinha do interior, e ele ficou encharcado de vodca. Então, disparou a todos os presentes que eu havia comido a pizza dele. Quer dizer, ele ofereceu de má vontade. Sinceramente, que coisa feia. Isso eu não faço jamais. Se eu lhe ofereço algo, é de coração. Vá fundo. Não tenha receio. 
 
A leveza é um santo remédio para a saúde. A nossa aparência fica muito melhor. Experimente exercitar a isenção da culpa. Se você é mulher e mãe, não pense jamais que ser mãe é padecer no paraíso. Não se culpe se você preferir às vezes estar muito bem entre amigas (ou namorando), em vez de estar fazendo o jantar da família. A criança (ou adolescente) está com alguém?, podem até perguntar, “ah, sim, mas é que eu tenho a obrigação...” 
 
Esqueça, não existe nenhuma regra para isso, a não ser a convenção imposta pela sociedade patriarcal de “quem pariu Mateus que balance”. De toda forma, coloque na sua cabeça: não há condenação justa. Faça ouvidos de mercador. Viva por sua cabeça. Se você ainda não consegue sublimar essa sensação chata, esse incômodo que corrói feito ferrugem, é melhor buscar uma terapia. Porque é um caminho sem volta. Você vai e volta sem ela, a culpa cristã. 
 
Tem gente que nem consegue dormir direito, pensando na quantidade de água desperdiçada da máquina de lavar. Eu era assim. Lavava roupa à mão. Tem gente que não consegue empreendedor pensando nas centenas de embalagens que serão descartadas. Eu sou assim. Mas por enquanto estou sobrevivendo sem vender minhas delícias. Porém, já me decidi a trabalhar isso em mim, para fazer esse negócio fluir. Eu trabalho com ela, eu converso com ela, eu debato e dialogo. Tem dias que eu ganho. Tem dias que eu perco para ela. 
 
A culpa cristã. Mas, porque ela tem esse apelido? Devido à doutrina cristã que diz que já nascemos pecadores. Fui criada na igreja e morria de medo da condenação, ir pro inferno. Depois fiquei bastante cética, até que passei a acreditar na graça. Na graça do Divino que nos concede o dom da vida. Sou feliz, sou grata, eu sorrio, eu choro, eu peço perdão a quem eu acho que de alguma forma fui inconveniente. E peço desculpas em raríssimas situações. Se estou aqui é porque cheguei. Se não estive antes, foi porque não deu. Eu sou assim.
 
E foi pensando em tudo isso que eu abri uma latinha de cerveja antes de chegar em casa, depois do trabalho, e dei risadas sozinhas pensando na "desculpa" que eu dou de vez em quando para tomar uma loira gelada, sempre que eu quiser. "Sou carioca e lá no Rio a gente não tem dia nem hora". Hahaha só se for. Sou fluminense, nascida no estado do RJ, e isso não é desculpa. É? E eu ligo? Beijos sem culpa para todos vocês. Sigam meu Instagram @sersimplesesaudavel.