Ana Paula Campos

05/10/2020
 
Narrativas midiáticas de poder 
 
Recentemente, assisti na Netflix ao documentário O dilema das redes, lançado este ano. Trata-se de uma análise interessante sobre o óbvio: o fato de não conseguirmos largar nossos aparelhos celulares e o porquê disso. A discussão, conduzida por profissionais que trabalhavam/trabalham diretamente na criação e manutenção dos aplicativos que usamos diariamente, intercalada pela fala de especialistas críticos do fenômeno, revela como somos manipulados por grandes empresas para consumirmos seus produtos de forma alucinada e alienada.
 
Apesar de bastante interessante, achei de muito mau gosto utilizarem a música I will spell on you da cantora afro-americana Nina Simone. Simplesmente porque não somos nós, pessoas negras, que estamos à frente dessa disputa por usuários “enfeitiçando as pessoas”. Isso é o que revela uma pesquisa realizada por Aza Njeri, entre os anos de 1995 e 2014, considerando o universo das novelas brasileiras. A pesquisa nos revela o seguinte panorama quanto ao protagonismo feminino no Brasil:
 
- 54% são homens brancos; 
- 43% são mulheres brancas;
- 4% são mulheres não brancas;
- 1% são homens não brancos (nenhum negro);
- 15 novelas da Rede Globo falavam sobre escravidão.
 
No que diz respeito ao cinema brasileiro, entre os anos de 1995 e 2018, analisando o escopo dos filmes de longa duração e alta bilheteria temos:
 
- 84% dos diretores, 71% dos roteiristas e 49% do elenco são homens brancos; 
- 21% das diretoras, 34% das roteiristas e 34% das personagens são mulheres brancas; 
- 2% dos diretores, 3% dos roteiristas e 13% dos personagens são homens negros (apenas em Cidade de Deus);
- 4% das personagens e sem registro de diretoras e roteiristas são mulheres negras.
 
A própria pesquisadora conclui que a indústria cultural retira a autonomia da história negra para impor a visão universal eurocentrada da história do outro.
 
O que isso significa é que não estamos em posição de tomada de decisão. Não somos nós que ditamos as regras do jogo. 
 
A filósofa Aza Njeri nos esclarece que as novelas e o cinema são as maiores máquinas da indústria cultural de todos os tempos. Apelando para uma narrativa envolvente com atores e atrizes que admiramos, conseguem manipular nossas emoções e percepção que temos do mundo. O filósofo Renato Noguera corrobora esse pensamento e acrescenta que as mídias se utilizam de fruição estética para formar o imaginário coletivo, construindo arquétipos e estereótipos negativos das pessoas acêntricas. 
 
O documentário A 13º emenda, também da Netflix, informa que o filme O nascimento de uma nação, produzido nos EUA, foi responsável por disseminar o mito do estuprador negro quando o ator branco, com o rosto pintado de preto (blackface), assumindo uma postura agressiva e violenta, coloca em risco a vida de uma donzela branca. Não à toa, apesar de abrigar apenas 5% da população mundial, os Estados Unidos têm 2,3 milhões de pessoas em situação de prisão, ou seja, mais de 25% dos presos do planeta. Dessa população presidiária, 40% são negros. Um percentual muito grande, considerando que representam apenas 12% da população total do país.
 
Filmes e novelas foram e ainda são usados para justificar a escravização de corpos negros e operam para manutenção do racismo. Vamos a alguns exemplos? Durante anos fui apaixonada pelo filme À espera de um milagre. O personagem John Coffey, interpretado pelo ator Michael Clarke, foi preso acusado de estuprar duas meninas brancas. Tinha poderes mágicos e uma aparência ingênua, mas não se livrou da condenação. A narrativa naturaliza a morte de um homem inocente quando o foco das cenas era outro: um policial com infecção urinária, um policial escroto e a esposa doente de outro policial. John Coffey estava ali para resolver os problemas deles... típico.
 
O que, talvez, muitas pessoas não saibam é que com a 13º Emenda criada pelo eugenista Jim Craw, negros não podiam sequer olhar para mulheres brancas sob pena de serem acusados e punidos. O filme narra de forma romantizada a morte de George Stinney Jr., uma criança de apenas 14 anos de descendência africana que foi condenado à morte em uma cadeira elétrica acusado de matar duas meninas brancas. O julgamento durou duas horas e a sentença foi dada 10 minutos depois por jurados brancos. O garoto passou 81 dias sem poder ver os pais. Mais de 70 anos depois, ele foi inocentado.  Aqui no Brasil, uma juíza condena um jovem partindo da premissa de que ele era negro e, portanto, perigoso. A vida imitando a arte.
 
Aza Njeri, em seu canal do YouTube, tem um vídeo intitulado Da representação à representatividade, no qual nos apresenta arquétipos e estereótipos presentes no mundo midiático. Percebam, o ocidente foi construído em bases binárias e opostas. Para que haja a imagem de uma mãe serena e imaculada, é preciso haver a mãe barraqueira como Rochelle, na série Todo mundo odeia o Cris. Para sustentar a figura do herói e heroínas branco/as, precisa haver um/a negro/a que não sabe se defender, e assim temos o filme Diamante de Sangue, no qual o pai do garoto sofre o filme inteiro para salvar o filho, mas o grande feito é realizado pelo Leonardo Di Caprio. Outro exemplo é o filme Cem anos de escravidão, quando mais uma vez o mundo é salvo pelo galã (Brad Pitt). Até a Viola Davis se deixou cooptar por essa máquina mortífera quando interpretou umas das empregadas domésticas do filme Histórias cruzadas e concluiu: “Eu me traí”.
 
Talvez, acompanhando a luta dos Movimentos Negros, a indústria do cinema esteja investindo mais em filmes com roteiro potente para personagens negros/as de pele retinta, inclusive e que não precisam apelar para a ultrassexualização dos corpos como aconteceu com os atores Terry Crews, interpretando um milionário que beira o ridículo em As branquelas; e The Rock, em praticamente todos os seus filmes. Aliás, como percebido na cena em que uma jovem branca morde seu peito na praia. Não, não é ficção. O vídeo está disponível no Instagram do moço.
 
Mas o que não podemos perder de vista é que a Netflix também é uma empresa que lucra bilhões com as nossas assinaturas e audiência. Não sejamos ingênuos ao ponto de esquecer que criticar outras empresas como Facebook e Twitter nada mais é do que uma disputa de narrativas. Contudo a Netflix oferece filmes bem produzidos e que merecem nossa atenção. Segue a lista:
 
The son
Beleza por um fio
Cara gente branca (série)
Os Panteras Negras – vanguarda na revolução 
What happened, Miss Simone?
Maya Angelou – e ainda resisto 
A 13º Emenda 
 
Mas, se você estiver mesmo disposto a ampliar sua visão de mundo, sugiro que conheça a Blackflix. Disputa por disputa, fiquemos com os nossos!