Eliade Pimentel

01/10/2020
 
Mudar ou ficar na mesma, tanto faz (?) 
 
Muita gente diz que eu não mudei quase nada, desde quando era mais nova. Tem gente que diz o contrário. Eu sinto que mudei em vários sentidos, e ao mesmo tempo que continuo a mesma menina de outrora. Na aparência, estou uma mulher madura, com os cabelos loiros mais esvoaçantes, e um pouco mais pançuda. Não sou necessariamente sedentária, mas também não sou um primor de vigor físico. É natural um certo acúmulo de gordura ao longo dos anos.  
 
Continuo idealista, sonhadora, ativista da paz e do amor. E me permiti mudar em outras coisas, como na maneira de encarar a vida. Por um certo tempo, eu era muito “urban rel”: cheguei a pintar meu cabelo de vermelho, meio cobre, gostava de calças pretas e andava até de coturno. Mas, aos poucos comecei a flertar com o estilo de vida mais colorido, mais ao ar livre, em contato com a natureza. Não sei dizer como exatamente aconteceu essa mudança em minha vida. Apenas fluiu. 
 
Ter uma chácara perto da praia contribuiu bastante. Mas foram outros elementos, já citados em outras crônicas sobre minha vida e meu jeito de ser, que ajudaram a delinear esta moça aqui que vos escreve. Exatamente hoje, ao perambular pelo meu quintal, veio a minha mente uma certa ocasião em que eu estava estendendo roupas em minha casa, em Baía Formosa, e uma das minhas irmãs me ligou. Fazia pouco tempo que eu havia retornado de uma temporada noutro estado, e o assunto era sobre a necessidade (ou não) de mudanças. 
 
Ela se referia à mudança física, de lugar, e eu respondi de maneira bem resumida àquele questionamento sobre o porquê de eu “ter largado tudo” – não sei o que tanto – para estar ali, levando uma vida simplesinha, na época fazendo pouco ou nada da minha profissão, o jornalismo, e cuidando da minha filha e vendendo bombons recheados e outras delícias. “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Eu estava me referindo principalmente que minha vida não é estanque. 
 
Nem sempre o que eu penso hoje, sobre como gosto de viver ou de estar, vai ser igual daqui a alguns anos. Eu me permito vivenciar mudanças relacionadas a tudo, inclusive de opinião e de gostos, sobretudo musicais. Nas antigas, eu odiava forró. Sei lá. Ficava incomodada porque em Natal toda festa só rolava esse estilo musical. E tudo o que eu mais amava na vida era o rock’n’roll. Fui conhecendo outros estilos, aprofundando os gostos, até que me considero bem eclética e aberta a novas vertentes artísticas. Eu aprendi a me divertir em todos os lugares, essa é a melhor parte.   
 
Ao mesmo tempo, tenho dificuldade de me relacionar com algumas variações, por exemplo, domésticas. Não sou de ficar mudando móveis de lugar, apesar de ser aberta a opiniões e aconselhamentos (nem tanto, para ser sincera). E confesso que minha maior dificuldade é com relação a pessoas. Nem sempre eu consigo mudar. Quando desconfio, ou não simpatizo, eu sou meio chata mesmo. No entanto, eu mudo até meus sonhos. Já cheguei a pensar em ser juíza, advogada, cozinheira, professora, astronauta, etc e tal, mas nunca guia de turismo. 
 
Abandonei duas graduações que de certa forma teriam mudado ou alavancado um pouco mais minha vida profissional, e não me arrependo, mesmo levando em conta que ambos os cursos representariam mais oportunidades de trabalho. A novidade veio já na minha vida adulta, mãe de uma garota, quando resolvo arriscar um processo seletivo e ingresso no IFRN/Cidade Alta, e conquistei mais essa profissão. Eu me apaixonei pelo segmento e gosto de exercer a hospitalidade. Na minha casa de praia, sou anfitriã. E a função de guia é inerente, pois adoro dar dicas de roteiros. 
 
A liberdade de ser e de estar é algo absolutamente pessoal. Sou muito de respeitar as pessoas. Admiro e respeito quem não tem necessidade de mudar por nada. Seja o visual, a casa, a cidade, a profissão, o parceiro ou a parceira, e dou a maior força para quem está se sentindo incomodado com o que considera mesmice. Nesse caso, a melhor coisa é se libertar de amarras e dar a volta por cima. Quem nunca quis jogar tudo para o alto e começar do zero? Para essas pessoas, mudar é importante para crescer, para atingir o nirvana. Mudar não será tanto faz. 
 
E quando eu digo tanto faz, refiro-me ao caminho que cada um decide seguir. O importante é ter consciência de que está seguindo a intuição, o que o coração está mandando. Não adianta se forçar a mudar sua trajetória só porque as outras pessoas acham que você se acomodou. Não se preocupe. Vá em frente sempre. Mudar ou ficar na mesma tanto faz, porque a escolha cabe somente a você.