Ana Paula Campos

21/09/2020
 
O nosso ideal masculino
 
 
Influenciados/as por uma sociedade patriarcal, muitos/as de nós crescemos e passamos boa parte da vida à espera do príncipe encantado. Com efeito, sempre que queremos elogiar a beleza de um homem, dizemos que ele parece um deus grego. Mas vocês já pararam para pensar nesse ideal masculino?
 
Vejamos: os deuses gregos eram homens de força, poder e virilidade. Também eram conhecidos pela busca do saber e pela valorização da filosofia e das artes. Todavia, quando associamos um homem a um deus grego é só por sua beleza física mesmo, geralmente por serem homens dotados de um corpo escultural. Prova disso são as esculturas de Davi e Hércules da era renascentista, veneradas até hoje. 
 
Já os príncipes encantados, como um bom membro da nobreza, são gentis, metrossexuais e possuem um corpo mediano, sem tantos músculos. Dotados de grande coragem, adentram a floresta em busca da donzela amada. Se voltarmos nossa atenção para o século XVIII, encontraremos homens exuberantes, com suas perucas, meias-calças, pó de arroz e roupas repletas de babados. Agora, se pararmos para pensar no perfil de homem que desembarcou no Brasil no período colonial, teremos uma mistura grosseira de ladrões, estupradores, condenados pela Lei etc. Nada muito digno de admiração.
 
Fui buscar a definição do verbete homem no dicionário Michaelis. Eis as acepções que mais me chamaram a atenção:
 
“Adolescente do sexo masculino que atinge a virilidade”
 
“Homem dotado de atributos considerados másculos, como coragem, determinação, força física, vigor sexual, etc.”
 
“Indivíduo que mantém uma relação afetiva com uma prostituta e a explora financeiramente”
 
“Indivíduo que faz parte de um exército”
 
Percebem que as definições estão sempre ligadas às questões de virilidade sexual e de força física? Então, um homem com disfunções eréteis ou que não é dotado de força física não é homem? E os homens trans, não são homens?
 
Chegamos, então, à questão de identidade de gênero. Observe o que descreve Câmara Cascudo a respeito do tema, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro (2000): “A tradição popular brasileira mantém o homem na mesma posição privilegiada e universal.” (CASCUDO, 2000, p. 274).
 
Observem que ele não diz que esse perfil de homem brasileiro é uma identidade natural. Ao contrário, ele fala em construção cultural do conceito. Umberto Eco, em A História da Beleza (2004), respalda nossa afirmação, quando diz: “[...] a Beleza jamais foi algo de absoluto e imutável, mas assumiu faces diversas segundo o período.” (ECCO, 2004, p.14).
 
A sociedade definiu um ideal de macho e esse varão precisa seguir nos conformes. O nome que se dá a isso é MACHISMO. O machismo é um sistema estrutural que, ao contrário do que muitos/as pensam, cobra e fere não só a mulher, mas o homem também. Este se vê preso a padrões estéticos e performances sexuais que, quando não atingidos, causam muita dor a eles próprios. Com o mesmo rigor a sociedade não aceita homens metrossexuais. “Homem que é homem fala grosso e coça o saco.”
Se nosso ideal de homem foi construído ao longo dos anos, então, podemos reconstruí-lo de uma forma mais flexível e que atenda a todos os perfis, sem opressão de padrões universais.
 
Entenderam, agora, por que o feminismo negro não é só para as mulheres?