Ana Paula Campos

14/09/2020
 
A filosofia por trás das narrativas infantis 
 
Minha fala hoje é direcionada às mulheres negras. Espero que estas palavras toquem seus corações e ajudem a acender o sol da humanidade em todas. Para ajudar nessa tarefa, escolhi analisar a mensagem contida na obra Kiriku e o colar da discórdia, de Michel Ocelot. Esse livro faz parte de uma coleção. São narrativas afrocentradas, isto é, escritas por uma pessoa branca, mas que trazem a potência dos valores africanos.
 
Historicamente, a literatura infantil foi vista como algo de menos valor e relevância, uma vez que, destinada para crianças, não trazia reflexões profundas sobre a vida e o convívio em sociedade. Até hoje, quando alguém se refere à literatura infantil, comumente usa o termo no diminutivo: historinha. 
 
O fato é que as crianças são o nosso futuro e assim, formar o adulto de amanhã é uma tarefa que se inicia na mais tenra idade. Em África, crianças e adultos se reúnem juntos/as/es aos mais velhos para ouvir seus ensinamentos. Todos os membros da aldeia reconhecem nas narrativas a potência dos saberes ancestrais que são apresentados de forma lúdica pelos Dieli ou Akpalôs, os/as contadores/as de histórias. 
 
Rememorando nossos ancestrais e suas práticas milenares, peço que sentemos juntas para ouvir essa história. 
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Karaba, a feiticeira, incumbiu seus súditos de entregar um colar todo feito em ouro na aldeia de Kiriru, mas advertiu que ele só poderia ser usado pela mulher mais merecedora do artefato nobre. Estava armada a confusão. Todas as mulheres passaram dias discutindo e argumentando a razão de cada uma, em especial, merecer o adorno. Ao longe, Karaba apenas observava satisfeita o sucesso do seu plano. Com as mulheres ocupadas duelando, a colheita e demais a fazeres da aldeia ficaram por fazer. Alguns dias depois, o colar desapareceu, provocando ainda mais discórdia entre todas. Porém, numa manhã, cada mulher foi surpreendida com um colar, ainda mais bonito que o original, feito com pedaços do primeiro e mais sementes e penas do lugarejo. Kiriku havia pego e colar e remodelado de tal forma que todas fossem contempladas. Apenas sua mãe recebeu um colar feito com sementes e penas. A harmonia voltou a reinar entre todas/os/es.
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Percebem? Essa história fala de nós, mulheres negras. A branquitude, aqui representada pela feiticeira Karaba, se utiliza de suas ferramentas para colocar uma irmã contra a outra. É um verdadeiro duelo para ver quem se destaca mais, quem tem mais seguidores, quem sabe mais. E enquanto as irmãs de cor se desentendem, o trabalho na nossa comunidade deixa de ser feito, a militância enfraquece e nosso povo segue morrendo. Algumas de nós, inclusive, adoecem tentando ser aceitas nos espaços da branquitude. 
 
Kiriku, trazendo os saberes dos mais velhos, nos lembra que isso não é nosso. Hierarquizar potências é ocidental, e o ocidente faliu. Precisamos seguir o exemplo da mãe de Kiriku. Apenas ela entendeu que não precisava da aprovação dos brancos/as para ser quem é. Ela é, independente de reconhecimento. Ela tem o mais importante: o elo com a natureza. 
 
Nós, mulheres negras, já nascemos com a coroa na cabeça. Todas nós nascemos para brilhar, e o brilho de uma não significa o apagamento do brilho da outra. A branquitude é ardilosa e se utiliza de artifícios sofisticados para nos separar. “Dividir para conquistar”, lembram?
 
Como afirma a filosofia Kindezi, todas nós nascemos com um sol interno, e é responsabilidade de toda a comunidade manter esse sol aceso. Esqueça a disputa. Eu sou porque você é. Isso sim é nosso. É bantu!
 
Seguimos juntas?