Ana Paula Campos

07/09/2020
 
 
SOCORRO! 
 
Esse período de pandemia não tem sido fácil para ninguém. Os efeitos do cárcere têm afetado as pessoas de tal modo que, além de sintomas como dor de cabeça e insônia, os conflitos nos relacionamentos também aumentaram. Tudo isso sem falar das desigualdades sociais. Quando analisamos os fatos com foco nas periferias do país, pretas em sua maioria, o cenário é ainda mais cruel e preocupante.
 
Mas hoje estou aqui para falar de algo mais específico. Estou aqui na condição de mãe preta. Quem me acompanha mais de perto sabe que minha filha passou a estudar em uma escola nova este ano. O fato, por si só, já estava me fazendo arrancar os cabelos, pensando no processo de adaptação dela por conta da surdez.
 
Como se não bastassem as angústias para minimizar as dificuldades auditivas que minha filha iria enfrentar, recebemos a notícia de que ela se submeteria a sua terceira cirurgia nas pernas em consequência de um problema na tireóide. Choro. Depressão. Resiliência.
 
Giovana é uma menina muito corajosa. Uma semana de recuperação e ela decidiu retornar à escola ainda que de cadeira de rodas.
 
 Escola. Fisioterapia. Dor.
 
Então, quando eu penso que pior já passou, vem uma pandemia mundial. Demos continuidade à fisioterapia, e a aula a partir de então passaria a ser em casa. Adaptamos um lugar com recursos específicos, mas Giovana simplesmente não estava acompanhando. Resolvo “parar” minha vida e ensiná-la. Mas quem danado ainda lembra como se calcula expressão numérica com radiação e potenciação?!?!
 
“Não adianta, mamãe. Gigi não aprende como todo mundo.”
 
Enlouqueci. Giovana havia internalizado que o problema era ela. Foram horas ao telefone dialogando com a equipe pedagógica, repensando ações para enfrentar o desafio. Quando a coisa engrenou, desabei e fui encaminhada para a psicóloga que já acompanha minha filha. Após algumas sessões, ela ligou para a escola e disse que tivessem paciência comigo, pois eu estava ansiosa para que Giovana desse retorno positivo às aulas. Hein?! Lá se foram horas de diálogos produtivos com a instituição.
 
Bom, chegamos no ponto central dessa narrativa. Quando mães dão conta de tudo, são chamadas de guerreiras. Quando desabam, são chamadas de surtadas (ou ansiosas, como no meu caso). Não espero que uma mulher branca tenha lido na faculdade sobre as especificidades da maternagem negra, mas eu realmente acreditei que, por ser mulher, compreenderia a minha condição de mãe solo.
 
Quando dizemos que o racismo e o machismo são estruturais, é para que profissionais de saúde, por exemplo, atentem para as imposições sociais que recaem sobre as mulheres, em especial, negras. Quando esse/a profissional está diante de um paciente, precisa compreender que esse sujeito é atravessado de várias identidades, e que a análise não pode ser superficial. 
 
No meu caso especificamente, sou uma negra com alguns acessos — sim, porque privilégios não cabem em um corpo negro. Por ser concursada, estou podendo ficar em casa e auxiliar minha filha em suas necessidades. Essa realidade é um recorte do todo. No geral, mães negras moram em localizações sem saneamento básico, sem transporte público perto de casa, sem renda fixa e muitas vezes sem o parceiro. Se eu que tenho recursos estou entrando em colapso, imagine uma mãe preta da periferia. Não estou aqui medindo dores. Dor é de quem sente. Antes, espero que passemos todos/as a ver as pessoas não mais como “seres humanos universais”, mas sim como sujeitos complexos. Mais empatia, por favor.