Eliade Pimentel

03/09/2020

 

Luxar é desfrutar do que está à mão

 

Tenho dois endereços em rodovias litorâneas, RN-062 e RN-063. Sou louca por praia, mar e água salgada. Seja para caminhar e aproveitar a natureza, contemplar a maré cheia, o surf e seus derivados, ou apenas curtir o que considero minha receita de vida perfeita: pé na areia, caipirinha, água de coco e cervejinha. Não nessa mesma ordem. Nem tudo junto no pacote.

Aos 6 anos, vim morar no Rio Grande do Norte. Morávamos em Volta Redonda-RN, onde eu e alguns irmãos nascemos. Meu pai, potiguar da cidade de Serrinha, decidiu trazer a família numa Kombi. Dos nove filhos, seis pegaram a estrada naquela que considero a maior aventura da minha vida até hoje.

Pela primeira vez, ouvi a expressão “qualidade de vida”, pois nossa cidade era muita poluída. Ele havia proposto a minha mãe para fixarmos residência por aqui, para terminar de criar os filhos num lugar de clima mais agradável. E assim foi posto. Minha mãe, fluminense de Resende, já conhecia as terras potiguares e se adaptou muito bem.

Enquanto ainda tínhamos o veículo, frequentamos muitas praias, das urbanas Artistas, do Meio e Forte, às primeiras do litoral Norte: Redinha, Santa Rita e Jenipabu. Tivemos o privilégio de tomar banho de lagoas e comer frutas silvestres, como camboim, guabiraba e murici. Tudo isso era um verdadeiro luxo para aquela meninada. Fruta fresca e água cristalina.

Viemos para morar no Alecrim. Era o sonho dele. Compramos uma casa financiada pela Caixa e esse foi nosso primeiro grande luxo. Toda a família, 11 pessoas, pôde se acomodar naquela imensa casa, de quatro quartos, quintal e anexo, um misto de ponto comercial e residência. Imaginem. Íamos a pé para todos os lugares, como igreja, escola e trabalho dos meus pais. E claro, frequentávamos a famosa feira do bairro.

Com cestinha de palha, eu e a mana mais nova nos revezávamos no luxo que era carregar as frágeis mangabas, protagonistas do sagrado suco ao leite que minha mãe fazia. Por falar nessa frutinha maravilhosa, meu pai nos deu um grande presente, adquiriu um quintal imenso para a família e realizou o sonho de minha mãe. Um terreno em Pium, quando o distrito de Parnamirim ainda era uma comunidade pouquíssimo urbanizada.

Entre mangueiras, pitombeiras, mangabeiras, coqueiros e outras frutíferas, fomos acompanhando o desenvolvimento do pequeno paraíso situado às margens da Rota do Sol. Já se passaram mais de 30 anos, alcançamos a água encanada chegar a Pium e nosso pomar é um verdadeiro luxo, usufruído principalmente por mim, que ouso morar nessa nada humilde propriedade.

Eu falava tanto que a poeta Hild Hilst não tinha juízo porque morava num sítio, e me vejo sozinha muitas vezes curtindo a solidão que a natureza me permite. Eu, meus gatos, meus tejos, meus micos e todos os outros seres que lá habitam.

Gosto de morar perto da praia, é um luxo do qual não abro mão. E gosto de viver simplesmente. Meu próximo luxo será assistir ao jogo do Mecão (América X ABC) na próxima segunda (07), em pleno horário de expediente, só que estarei de folga! Verdadeiro presente dos deuses.

Obrigada e até a próxima quinta, com mais uma crônica do meu jeito "ser simples e saudável de ser".