Ana Paula Campos

31/08/2020
 
Toque se toque, retoque!
 
 
 E a nossa coluna segue dialogando com a proposta de aquilombamento dos/as nossos/as ancestrais. Hoje, tenho prazer de apresentar a escrita de uma irmã preta de Salavdor, 
Maristela Marie.
 
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Em 2016, uma pesquisa realizada pelo Programa de Estudos em Sexualidade (Prosex) da Universidade de São Paulo (USP), mostrou que 40% das brasileiras não se masturbam e 55,6% não conseguem chegar ao orgasmo. À primeira vista esses dados podem nos assustar, porém, se olharmos ao longo da história podemos perceber como nós mulheres fomos castradas por discursos religiosos, culturais e sociais cristalizados ao longo do tempo e que consequentemente nos impediram de atingir esse pico do prazer sexual que é o orgasmo. Outra questão muito importante, é que esses dados refletem as experiências de pessoas numa relação heterossexual cis gênero. Por isso, se você se encontra nesse tipo de relação, essa coluna foi feita pensando em você.
 
Segundo Carla Cristina Garcia, socióloga da PUC/SP e autora do livro Breve História do Feminismo, “as consequências disso não tem a ver só com o sexo, já que também influenciam a autonomia e a falta de conhecimento das mulheres sobre o seu próprio corpo”. Por isso amiga leitora, se você se vê representada nesses números acima citados, não se culpe
Sem uma educação sexual que nos permita nos conhecer e sem se tocar fica difícil mesmo gozar, seja num sexo compartilhado ou sozinha, se você não conhece as carícias, se você não se permite fantasiar momentos de prazer, fica sim muito mais complicado gozar. Não quero aqui atribuir apenas às mulheres a responsabilidade de saber gozar. Os homens também tem grande influência na capacidade de gozo numa relação compartilhada. Todavia nem sempre eles estão preocupados (ou não sabem?) em nos auxiliar na hora de gozar, querem logo a penetração, esquecem eles das outras partes, esquecem-se de beijar, cheirar, chupar (principalmente). Isso quando preferem se eximir dizendo que quem tem que saber gozar é a mulher. Será mesmo? E as 8.000 terminações nervosas que o nosso clitóris tem? Simplesmente o dobro das terminações nervosas presente no pênis. Se a gente tem tudo isso, será que o problema está só na gente que não sabe gozar, ou será que os homens é que ainda enxergam a gente como ser que sempre lhe dará prazer sem uma devida reciprocidade?
 
Mas não é só isso, como dito anteriormente, os discursos presente em nossa sociedade que tendem a naturalizar a falta de gozo na vida das mulheres, com frases do tipo “aaa, não é em toda transa que as mulheres conseguem gozar” ou “homem goza com mais facilidade que as mulheres” contribuem e muito para isso. Por isso venho aqui te encorajar a se masturbar.
 
Temos a nossa mão, que é mão para toda obra!
 
A masturbação permite que a gente conheça cada parte do nosso corpo, contribui para o aumento da nossa autoestima, ou melhor, do nosso amor interior como nos diz bell hooks. Nas palavras da escritora norte americana “uso a expressão amor interior e não amor próprio porque a palavra próprio é geralmente usada para definir nossa posição em relação  aos outros”. Ou seja, quando digo amor interior, estou afirmando a necessidade que nós mulheres temos de nos reconhecer, conhecer nossas angustias, nossos sentimentos e nosso desejo, pois, “se passarmos a explorar nossa vida interior, encontraremos um mundo de emoções e sentimentos. E se nos permitirmos sentir, afirmaremos nosso direito de amar interiormente” (HOOKS, 2010, s/p). Além disso, segundo a Dra. Sheila Sedicias, que é médica mastologista e ginecologista formada pela Universidade federal de Pernambuco, a masturbação tem no mínimo cinco benefícios: alívio do estresse, previne o surgimento de infecções, previne a incontinência, diminui as câimbras da TPM e melhora a libido.
 
E para te excitar a começar a se masturbar, segue abaixo um poema feito por mim, no pós gozo atingido pela masturbação:
 
 
É assim que me sinto... Só, completamente só
Minha mão passeando pelo meu corpo, Nú, não...
Primeiro sinto o envolver do algodão sobre minha pele, E a mão deslizando e passando por pontos onde ninguém tocou
só eu sei esses pontos
somente eu saberei o gosto do arrepio que me tomou
E em ponto de ebulição, tremo sob o tocar das minhas mãos
somente as minhas mãos
o gozo de gozar sozinha me transmite extrema felicidade e bem estar...o estar sozinha...
a música ao fundo e os nós a desatar abrindo a porta do paraíso, o meu paraíso
nas entranhas úmidas sinto as digitais dos meus
dedos a me acariciar...
Bum bum bum Meu coração a palpitar
Não preciso de outro...só do meu olhar
É ele que me faz enxergar o delicioso prazer de me tocar
 
 
 
Maristela de Oliveira Meira é feminista negra, descendente indígena, professora de Filosofia licenciada pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), mestranda do Programa de Pós Graduação em Letras: cultura, educação e linguagens (PPGCEL/UESB). E-mail: marie.meira@hotmail.com. IG @MaristelaMarie.