Ana Paula Campos

24/08/2020
 
Receita de bolo para matar uma criança
 
 
Eu não gostaria de estar aqui falando sobre o aborto legal de uma criança, mas como as redes sociais estão cheias de pessoas prontas para dar suas opiniões carregadas de fundamentalismo religioso, acredito ser importante pautar a discussão por um viés contrário (e realista).
 
Antes de mais nada, gostaria de iniciar este texto reproduzindo a fala do senhor Olímpio Barbosa — que realizou o procedimento legal na criança de 10 anos — concedida ao CDH Senado Federal em setembro de 2015, e que ainda se vê tão atual.
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"Há sim os médicos que fazem aborto ilegal, eu nunca fiz. O dia que o SUS fizer eles, vão perder sua fonte de renda. Um dos médicos mais ricos de Pernambuco, que por sinal é muito católico, faz aborto por 3 mil reais. Toda sociedade sabe, mas ninguém prende porque ele atende amantes de deputados, senadores e filhas da população que tem dinheiro. Se ele atendesse pessoas pobres, estaria preso. As mulheres pobres continuam morrendo. Não é porque a gente não sabe como salvá-las na questão do direito reprodutivo, é porque nossa sociedade ainda não achamos importante salvar a vida dessas mulheres."
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O relato desse médico apenas confirma o que eu já havia dito em um texto sobre aborto meses atrás, aqui na minha coluna. Hoje, gostaria de retomar o debate de forma diferente. Vou me apoiar na literatura para não adoecer. Carolina Maria de Jesus já nos alertava sobre os quartos de despejo, mas parece que grande parte da sociedade insiste em não querer ver. Ou será que não consegue?
 
Nossa sociedade é muito bem estruturada. A elite compõe a sala de estar; o cristianismo, a cozinha; e a periferia, o quarto de despejo. A elite sabe bem o que despeja no quartinho e faz questão de manter a porta bem fechada para que ninguém de lá saia e se dê conta das desigualdades que os separam. Sim, porque nas palavras de Conceição Evaristo, a pobreza é um lugar epistêmico, mas apenas quando você sai de lá. 
 
O único esforço que a elite faz é manter os alicerces do nosso lar bem seguros. E por falar em nosso lar, temos o cristianismo na cozinha, trabalhando fielmente em nome da elite. Ele serve à elite pratos suculentos e que possam ser facilmente digeridos, ainda que todos os cardápios sejam pensados por ambos. A elite, por sua vez, enriquecendo o cristianismo que guarda secretamente sua fortuna dentro de santinhos de madeira que ornam despretensiosamente o ambiente. E se você está pensando que apenas as sobras chegam ao quarto de despejo, está muito enganado. A igreja tem o cuidado de preparar doces viciantes com alto poder alucinógeno. Os fiéis do quartinho de despejo recebem a refeição com alegria e protegem-na com unhas e dentes. Alguns até se sentem como sendo da elite e, nesse devaneio, chegam a defender as decisões tomadas por lá (ainda que não saibam exatamente do que estão tratando).
 
Um belo dia, enquanto todos se deliciavam com suas refeições, alheios a todo o resto, uma criança de 10 anos foi estuprada pelo padrasto. Dessa vez, o mau cheiro começou a subir, chegando à cozinha e à sala de estar. Não tardou muito para surgirem as receitas de bolo pelas redes. Uma pena que o ingrediente principal foi esquecido. Ninguém falava das investigações e punições ao culpado. Um membro da sala de estar sugeriu o tema “Frozen” para o bolo, enquanto alguém pegou uma ameixa preta e disse que estava estragada. Afinal, todas as ameixas pretas são iguais e não têm boa procedência. Por um instante, fiquei imaginando se, por causa de uma, resolvessem jogar todas as ameixas no lixo.
 
Mas voltemos ao bolo. Todo mundo sabe que quando muita gente mexe, a coisa desanda. Foi o que aconteceu. Fundamentalistas religiosos saíram de todos os cômodos e se aglomeraram em frente ao forno. Algumas mulheres, que dominam a arte ancestral da culinária, foram pra cima e ditaram a receita em alto e bom tom, e o bolo conseguiu chegar até a criança que se alimentou de afeto graças ao médico que soube dosar o açúcar na receita.
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Eu pensei que não fosse conseguir escrever sobre isso. Dói demais. Pensei que, escrevendo de forma metafórica, aliviasse um pouco, mas nós sabemos quem é quem nessa história, e isso torna a dor igual, senão pior. 
 
Eu gostaria de não precisar estar aqui dizendo o óbvio mais uma vez, mas vamos lá:
 
1) O Estado é laico, então aborto não deveria ser um assunto decidido pelos cristãos, e sim via políticas públicas. 
 
2) Sua opinião não interessa. Mulheres vão continuar abortando, só que apenas as pobres vão morrer por não poderem pagar por procedimentos caros.
 
3) Aborto é proibido no Brasil, mas não por uma questão religiosa, isso eles usaram como pano de fundo. O procedimento não será autorizado enquanto a elite continuar realizando-o em sigilo e lucrando com isso.
 
4) Por último, acorde! Você não é elite. Você divide o quartinho de despejo comigo e todos/as/es os/as/es outros/as/es assalariados/as/es.