Ana Paula Campos

17/08/2020
 
 Guerra Santa
 
 
29/03/2019 – Um terreiro de candomblé em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, foi invadido e destruído na última segunda. Religiosos contam que foram expulsos por traficantes da região.
                  G1 notícias 
 
18/08/2019 – Polícia prende “Bonde de Jesus” que ataca terreiros de umbanda e candomblé. Estima-se que existam hoje 200 terreiros sob ameaça.
                   Estadão Conteúdo
 
21/12/2019 – O “Comando Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira”, como eles mesmos se autodenominam, atacaram o prédio da produtora responsável pela criação dos vídeos do Grupo Porta dos Fundos com dois coquetéis molotov.
                     Revista Exame
 
06/02/2020 - Umbandistas são espancados após ataque com bombas a terreiro. Mães e pais de santo vítimas da agressão acreditam que o motivo seja intolerância religiosa. A Polícia Civil investiga o caso.
                   Metrópoles
 
07/08/2020 - Após denúncia de avó evangélica, mãe perde guarda da filha por participar de ritual de candomblé
                        Carta Capital 
 
11/08/2020 - Pais e mães de santo expulsos de Duque de Caxias temem novos ataques de traficantes e milicianos. A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa registrou, em 2019, 201 ataques e agressões contra terreiros de umbanda e candomblé no estado do Rio.
                         G1 notícias 
 
Estes são apenas alguns exemplos da fúria de cristãos de extrema-direita. Ao longo da História eles sempre estiveram à frente das guerras ou apoiando as batalhas em nome de Deus. Mulheres foram queimadas nas fogueiras da Santa Inquisição, acusadas de bruxaria. Indígenas e africanos foram escravizados, acusados de selvageria. Apenas os “cidadãos de bem” mereciam viver... mereciam terras e fortunas, também.
 
“Esta é a vontade de Deus”, dizem. E assim, escondidos atrás desse discurso covarde, foram ceifando vidas. Uma Guerra Santa parece justificar toda e qualquer atrocidade contra a vida humana. Humanos?! Não! Apenas bruxas e selvagens completamente diferentes do Deus que os cristãos cultuam: um homem branco. 
 
Homens brancos e de elite colonizaram a Índia, a África, o Brasil, de modo que a sociedade aprendeu a aceitar sem questionar os ataques aos grupos acêntricos, afinal, fé não se questiona. Marcharam décadas depois em nome de Deus e da família, mas de qual Deus estamos falando? De qual família? A fé cristã universalizou o Cristo e a “família tradicional brasileira”, a saber, pai, mãe e filhos/as, todos/as brancos/as e de elite. 
 
Em nome da fé, mulheres têm seus corpos violentados por seus companheiros, mas silenciam, pois é a vontade de Deus.
 
Em nome da fé, jovens homossexuais estão sendo assassinados/as/es, mas é a vontade de Deus.
 
Usam Deus como desculpa para pôr em prática seu discurso de ódio.
 
Sempre nos atacaram partindo do princípio de que praticamos feitiçaria e, portanto, somos perigosos. O Babalorixá, Sidnei Nogueira em seu livro, Intolerância Religiosa, da Coleção Feminismos Plurais, nos revela, a partir de dados estatísticos com base nas denúncias ao Disk 100, que NÃO HÁ NENHUMA NOTÍCIA DE ATAQUE RELIGIOSO ORQUESTRADO POR UMBANDISTAS, CANDOMBLECISTAS OU DEMAIS RELIGIOSOS DE MATRIZ AFRICANA, A TEMPLOS CRISTÃOS, NEM PARA REVIDAR.
 
E partindo desta análise, pai Sidnei vai nos conduzindo para a questão central do seu livro. Todos estes ataques não se configuram como intolerância religiosa, mas sim, como RACISMO RELIGIOSO. Em suas palavras, “tolerância é um termo que vem do latim tolerare e significa “suportar” ou “aceitar”. (NOGUEIRA, 2020, p. 57)    E conclui: “Em certa medida, a tolerância religiosa não é diferente do “mito da democracia racial” que diz que “somos todos iguais” e do mito que diz que “Deus é um só e somos todos filhos do mesmo Deus”. A própria tolerância nega todos estes mitos, pois, se de fato fôssemos todos iguais social, histórica, econômica e culturalmente, ninguém precisaria se tolerar”. (IDEM, p.59)
Ao nos falar da episteme do afrossentido, Babá nos lembra a filosofia exuística das encruzilhadas, na qual as verdades são múltiplas e válidas. Não estamos interessados em convencer ninguém. Não estamos interessados em desmentir as crenças de ninguém. Estamos aqui exigindo o nosso direito de coexistir e poder proferir nossa fé sendo fieis aos nossos saberes ancestrais. 
 
Finalizo com uma reflexão de pai Sidnei Nogueira: “A caminhada do outro é a caminhada do outro; ele e sua caminhada devem ser respeitados. Apenas a transgressão com o grupo poderá fazer com que o olhar individual e coletivo se volte para as diferenças. (NOGUEIRA, 2020, p. 131)
 
Àṣẹ!
 
DICA DE LEITURA: NOGUEIRA, SIDNEI. Intolerância Religiosa. São Paulo: Sueli Carneiro; Polén, 2020.