Emanuela Sousa

16/08/2020
 
Você não é o único que está sozinho
 
 
Muitos leitores especulam se as prosas contidas no meu mais recente livro "Coração a bordo" são histórias reais ou apenas fictícias.
 
Há um tom melancólico em umas e romântico em outras. Mas esse tom romântico desaparece quando falo em "Tenho medo de enlouquecer". Ali estou de peito aberto, tentando explicar da forma mais dramática e verdadeira possível, como é difícil ser ansioso e como eu gostaria às vezes, de não sentir nada.
 
Porque a linha entre ser ansioso e sentir dói e maltrata. Nos faz carregar lesões internas pro resto de nossas vidas.
 
A ansiedade vai entrando sorrateiramente de forma silenciosa e traiçoeira, se aloja em qualquer canto, não quer nem saber e quando menos espera já tomou todo o espaço. Quando você se da conta, já está jogado sobre a cama, encolhido, como uma criança indefesa. O choro vem, você se curva diante das preocupações  que ela te mostra porque ela vai te convencer até o final, que você não é o suficiente, que não é bom em nada e que na primeira oportunidade, será substituído.
 
Por um outro lado é sempre importante lembrar que as pessoas são sempre dotadas de sinais confusos. Não sabemos o que elas realmente querem e nem o que esperar delas. Se daqui há uns dias ainda vão sentir o mesmo por ti ou se foi só uma euforia passageira e instantânea.
 
Isto me perturbou bastante em dois mil e dezoito, tanto que me deixou inerte na cama por dias. A insegurança me deixou vulnerável. Enquanto a ansiedade se espalhava, fiz da escrita a válvula de escape. Nesta época nascia minhas primeiras prosas para escrever o livro. Nessa mesma noite me joguei de cabeça nos livros e me encontrei na filosofia de Bauman em "Amores Líquidos, a fragilidade dos laços humanos".
 
Eu buscava uma filosofia que justificasse o meu problema. Eu queria ser convencida de que meu problema não era um problema particular, mas sim o de outras pessoas. Não queria me sentir sozinha. Bauman clareou minha mente e me fez crer que estou vivendo em geração líquida, medrosa e marcada por relacionamentos curtos, fajutos onde "nada foi feito para durar."
 
E talvez seja por isso com tantos amores líquidos se desfazendo, por aí, que o número de pessoas com TAG (transtorno de ansiedade generalizado) e depressão, só aumentaram nos últimos dois anos. As pessoas sofrem, é claro afinal são rompimentos precoses... As expectativas e fantasias estão neste mesmo pacote. Achamos que encontramos nosso par ideal... De repente no dia seguinte nada.
 
No outro dia nada também, nenhuma mensagem, nenhuma ligação.
 
Simplesmente tudo escorre entre os dedos, como água.
 
Nisso vamos nos sentindo cada vez mais familiarizado com esses tempos. Vamos subindo os muros, criando mais mentes ansiosas, rompendo mais laços e milhões de corações partidos ficam sem esperança. No final, aderimos a frase que é melhor ficar sozinho.
 
Mas se parar para pensar, você não é o único que está sozinho nisso. Não é o único que sonha, cria expectativas e depois vê a pessoa indo embora sem, ao menos, dizer adeus.
 
Se isso te conforta, saiba que você não está sozinho.