Ana Paula Campos

10/08/2020
 
Foi com imensa alegria que recebi este presente dias antes do meu aniversário. Uma preta assistou uma Live comigo no Instagram e logo passou por um processe de reflexões e leituras. O resultado foi este ẹbọ maravilhoso que eu não poderia deixar de compartilhar com vocês. 
 
Segue o texto de Ellen Vieira. 
A dúpẹ́, querida! 
 
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SE VOCÊ PERMANECER NO RASO,  JAMÁIS APRENDERÁ A NADAR.
 
Durante minha infância, eu vinha para Governador Dix-Sept  Rosado, RN - cidade na qual resido atualmente – passar  todas as férias de fim de ano, e uma das tradições matinais era acordar cedo com meus tios e primos para irmos todos tomar banho no rio, geralmente no Rio da Ponte.  Meus 4 primos aprenderam a nadar desde muito cedo. Com tio Moises não tinha mistério: ele soltava os meninos na parte funda do rio e dizia ‘’se quiser sair vivo daí, comece a nadar’’ aqui não nos cabe o direito de julgar essa prática (risos), mas o fato é que todos nadavam como piabas nativas daquele lugar. Eu sempre fui uma criança medrosa. Demorei a aprender coisas simples como andar de bicicleta e nadar, e aprendi aqui com eles, através desse método eficaz, mas de segurança duvidosa (rindo de nervosa).
 
  Nesses passeios no rio, eu ficava na beiradinha quase todas as vezes, e minha tia sempre dizia que eu jamais iria aprender a nadar se ficasse sempre alí, mas por muito tempo eu preferi ficar no raso e brincar com as pedrinhas sozinha. [vou me dar  o direito de ocultar (?)  o fato de que eu morro de medo de animais marinhos, tanto faz ser uma piaba quanto um tubarão, ok?  Isso é história pra outro momento].  Era péssimo estar apenas observando os meninos pulando da ponte, as meninas descendo com a correnteza e eu  ali apenas como expectadora. E assim eu fiquei por muito tempo. Eu amava estar lá, adorava as brincadeiras, mas deixei de participar por medo de aprender, por receio de não ser capaz, e por achar que estava tudo bem, pois naquela beiradinha eu me sentia segura e em paz. Só não sentia que fazia parte, me sentia meio excluída, mas tudo bem...  eu estava segura, né?
 
Da mesma forma, está o despertar para a nossa consciência política. Desde muito nova eu falo sobre racismo,  representatividade negra na mídia e outras lutas que estão engajadas nesse viés. Só que falar sobre Racismo sempre foi muito difícil pra mim, pois acessa muitas questões emocionais e embora eu tivesse me posicionado tantas vezes, não sabia da potencia que havia dentro de mim. Sempre ficava abatida quando via nos noticiários sobre genocídio negro, sobre o extermínio da juventude preta periférica, sobre a violência policial e doméstica contra homens e mulheres pretos. Eram pautas dentro da minha luta, mas que eu nunca me debruçava sobre o assunto pois  me doía muito, me fazia muito mal ver aquelas notícias e aqueles números horríveis, da porcentagem do extermínio do negro periférico.
 
Por muito tempo eu me detive apenas a questão do cabelo cacheado/crespo, que pra mim sempre foi um lugar de fala confortável,  me permitiu conquistar pessoas e meu espaço nas redes sociais. Mas quando pendia pra assuntos mais sérios, sobre a violência ou quando  perguntavam a minha opinião sobre as temáticas que, finalmente, já estão sendo debatidas por intelectuais pretos, eu sempre preferia me abster, e permanecer no meu lugar confortável de ‘’cabelo’’.
 
Com a idade, a maturidade veio me abraçando, e a necessidade de entrar na água foi surgindo em mim. Eu não queria mais ser apenas expectadora de tudo aquilo, eu queria participar de forma ativa, dar minhas contribuições, e ver ate onde eu podia chegar.  Dei os primeiros passos em busca dessa experiência, e comecei a ser influenciada por algumas pessoas pretas na internet, e então minha consciência começou a expandir. Eu percebi que havia muito mais água ali, e aquele rio era raso demais pro tipo de experiência que eu sabia que era capaz de viver. Eu via aqueles poucos pretos detendo um conhecimento tão grande e eu queria aquilo também, aprender a falar daquele jeito, reconhecer o racismo nas suas mais subliminares facetas, problematizar absolutamente tudo quando não há nossa gente ocupando espaços.. era aquilo que eu queria. Então percebi que era um oceano, e se eu tinha medo das piabas do rio em Governador, imagina o medo que eu teria dos animais desconhecidos que  haveriam no fundo daquele  mar... o medo do oceano me paralisou.
 
Durante o começo dessa pandemia eu entrei num estado vegetativo intelectualmente falando: não me detinha a ler absolutamente nada, nenhuma linha se quer. Quando estourou o movimento Vidas Negras Importam, toda aquela violência exposta, aqui em nosso país e no mundo afora,  a sensação de medo me capturou como se eu fosse um animal. Em seguida, o caso do menino Miguel.. outra paulada. Sempre que eu ouvia a frase  I can’t breathe  eu não conseguia respirar, literalmente.. e por ironia, parecia que eu estava me afogando nas águas que eu mesma  decidi entrar. Deter conhecimento dói, dói muito. Entender como a desigualdade social nos apaga enquanto povo preto, provoca uma dor tão grande, que só você lendo Lélia Gonzales, por exemplo, pra começar a entender. Estou lendo Lugar de Preto e ainda não terminei, simplesmente porque as palavras ali expostas ficam reverberando dentro de mim, falando alto na minha alma e no meu coração.  Mas em contrapartida, elas também tem me alimentado e me nutrido, me deixando mais forte e com muito mais vontade de mergulhar de cabeça no assunto, pra que um dia eu me torne uma preta potente assim como Ana Paula Campos e Wellytania Thais, que são minhas referências  intelectuais, como mulheres pretas, escritoras,  nordestinas e potiguares.
 
Hoje, além de eu saber que sou capaz, também entendi que cabe a mim buscar esse conhecimento e desbravar essas águas. O povo preto já foi unido pela luta e pela dor, agora precisamos ser unidos pelo conhecimento e pela potência que há em nós. Assim nos faremos livres, através do conhecimento; ele nos possibilita não apenas nadar com confiança, mas também alçar  vôos altos, que antes eram inimagináveis. É hora de aprender, de ler, de se debruçar sobre esse oceano sem medo.
Acho que eu tinha  esquecido, mas que bom lembrar:  Iemanjá é a rainha dessas águas e não há nada a temer! 
 
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Ellen Vieira:
Potiguar e Dixsepteense, feminista preta,  amante da Educação e da Arte como forma de expressão em todos os aspectos. Bacharel em Administração, Pós-graduanda em Docência no Ensino Superior.