Wellington Duarte

11/07/2020
 
As mortes morreram. A morte venceu. Viva a morte!
 
 
Não sei se vocês já repararam, mas as mortes assumiram um lugar secundário nas nossas vidas, inclusive nos noticiários, mais preocupados com as canalhices presidenciais. O BraZil consolidou-se como o segundo país com mais morticínio e passaremos à história de como um país não deve enfrentar uma pandemia.
 
Aqui não temos uma política de combate os efeitos da pandemia e virou um “salve-se-quem-puder”, com cada um buscando soluções próprias para enfrentar a peste.  Num ambiente desses e com uma população pobre basicamente em desespero, não é de se estranhar que estejamos nos acostumando com as quase 70 mil mortes.
 
Num cenário de naturalização da Morte, Bolsonaro se revigora e se reinventa, enquanto a esquerda vive na sua tradicional autofagia, buscando refúgio no messianismo político, os setores mais centristas e à direita, fazem o natural: se ajeitam.
 
Sem partidos com lideranças providas de força de convencimento, mantém-se viva as energias obscuras, medievais, consolidando o pensamento conservador em todas as camadas da sociedade. A “mamadeira de piroca” subsiste, com outras denominações e o medo de ser demitido empurra o assalariado para o silêncio; os servidores públicos, condenados a serem “escolhidos” como alvos por prefeitos e governadores, se apegam ao corporativismo de sobrevivência.
 
O Ceifador, a representação da Morte, caminha de norte a sul, do Oiapoque ao Chuí, faceiro e saltitante, sendo abraçado pelas pessoas, mais preocupadas com sua vida e sua sobrevivência; com as opiniões dos formadores de opinião; com as fofocas bolsonaristas; convencidas pelos empresários que sua vida é descartável; e parece que ficará por aqui algum tempo.
 
O “novo normal”, mais uma dessas balelas despejadas sem nenhuma base, mas acolhida com carinho até mesmo pelo atrativo da palavra “novo”, desenha-se como mais do mesmo, com uma roupagem mais sombria e isso vai se tornando claro.
 
No RN, chegando as 1.350 mortes, os enterros tendem a se normalizar, pois são pobres, a não ser quando morre uma figura destacada da sociedade, e tornam-se facilmente estatísticas lidas e propensas a serem colocadas em segundo plano. As pessoas já estão nas ruas e a “nova normalidade”, com mais desemprego, miséria e fome, e certamente a pandemia revelará nossa pequenez econômica e nossa fragilidade social.