Daniel Costa

06/07/2020
 
RICARDO LAGRECA E A INEQUÍVOCA VERDADE
 
 
O  médico e ex-secretário de saúde do Estado do Rio Grande do Norte, José Ricardo Lagreca, publicou texto de sua autoria em que responsabiliza o chefe do executivo federal pela tragédia do coronavírus. O seu comentário foi feito com clareza, de forma respeitosa e sem agressões. Ele emitiu opinião calçada em experiência e sabedoria originárias de uma vida voltada para a medicina.
 
Para quem não sabe, o Dr. Lagreca, após ter concluído o curso médico na Universidade Federal de Pernambuco, aproximou-se do grande Euryclides de Jesus Zerbini, pioneiro da cirurgia cardíaca no Brasil e um dos mais respeitados profissionais dessa área no mundo, tendo sido por algum  tempo seu pupilo em São Paulo. Depois, fez estágio em  universidade dos Estados Unidos. Voltou ao país, permanecendo em Recife. Foi lá que  realizou o primeiro transplante de coração no Nordeste do Brasil.
 
Como administrador de hospital público, Dr. Lagreca  se tornou uma referência nacional ao promover uma autêntica revolução no Hospital Universitário Onofre Lopes da UFRN. Transformou-o no maior nosocômio do RN e num dos maiores do Nordeste. Só para se ter uma idéia, quando foi criada a EBSERH- Empresa Brasileira de Administração de Hospitais Universitários, a administração do Onofre foi o modelo mostrado como exemplo a todos os novos dirigentes da empresa.
 
Não há dúvida de que o Dr. Lagreca tem, como muito poucos, um alicerce fortemente sedimentado para opinar sobre condutas de administradores e para tratar da melhor maneira de se conduzir a saúde pública no Brasil. Por isso, mesmo que se discorde da sua afirmação sobre a responsabilidade do presidente na convulsão do coronavírus, não é razoável refutá-la sem maiores reflexões, no calor da histeria. 
 
É preciso lembrar que o país não tem um ministro  da saúde no curso da maior crise sanitária  do século, e dois chefes da pasta  já  deixaram o barco no meio da tempestade.  O presidente  não foi capaz de criar uma comissão composta por especialistas do  Ministério da Saúde  e do Ministério da Economia,  para realizar uma estratégia conjunta de combate ao problema. Muito pelo contrário, ele resolveu refugar as recomendações internacionais de isolamento, minimizando o coronavírus  e  incentivando o descumprimento das  regras da quarentena lançadas pela maioria dos estados e dos municípios.
 
 Diante disso, os entes federados se viram obrigados  a agir por conta própria, sem o apoio da União, algo que seria de fundamental importância, já que no país não  vigora um federalismo simétrico. Todo mundo sabe que a trajetória institucional do Brasil  foi centralizadora. Existe uma elevada concentração de poderes e de recursos no nível nacional. E o fato de o STF ter decidido que estados e municípios, no âmbito de suas competências, podem adotar determinadas medidas, durante a pandemia, sem a necessidade de autorização do Ministério da Saúde, não exclui a responsabilidade do governo federal, principalmente quando  ele deixa de organizar  ações de ajuda sanitária  e econômica  de forma consistente.
 
O país caminha para a trágica marca dos 100 mil mortos. A supressão de informações e o silêncio do governo federal não são suficientes para apagar esse dado. O professor  Ricardo Lagreca, com todo seu cabedal de conhecimento e com a elegância que lhe é característica, disse o óbvio, a inequívoca verdade. Se  o presidente não  é  o único responsável, ele é  o   principal.