Théo Alves

05/07/2020
 
O confinado não praticante 
 
 
Não surpreende a ninguém a imensa criatividade do povo brasileiro, especialmente a que enseja o tal “jeitinho”, que muitos detestam. A “flexibilização” – palavra terrível que se tornou o caroço de nossos pesadelos – é outro conceito frequente quando o assunto são nossos valores e posturas. 
 
Por isso, ninguém pode se dizer surpreso diante de uma das mais autênticas invenções brasileiras em 2020: o confinado não praticante.
 
Para explicar essa figura tão genuinamente nacional quanto o Guaraná Jesus, seguem alguns traços básicos, facilmente reconhecíveis:
 
O confinado não praticante é alguém que defende ferozmente a quarentena, inclusive fala sempre em favor de sua radicalização e adora o termo “lock down”, que passou a usar de modo preventivo, assim como a Ivermectina. As pessoas que precisam trabalhar neste período são alvos constantes do confinado não praticante, que usualmente vive com os pais – que fazem parte do grupo de risco.
 
O confinado não praticante é radicalmente contra a decisão pela reabertura do comércio nestes tempos de curva ascendente dos infectados pelo Corona vírus. Inclusive, postou indignado no Instagram uma foto da multidão que lotou o shopping onde foi comprar o presente para sua namorada. 
 
As saídas de casa para quem pertence ao grupo dos confinados não praticantes se dão apenas em situações emergenciais como idas ao supermercado, banco, farmácia, cortar o cabelo, fazer as unhas, caminhar na praça para afastar o tédio, o pedal de 30 quilômetros com apenas oito amigos para manter a forma e aumentar a imunidade. 
 
É preciso dizer que essas pessoas abdicaram das idas diárias às academias, o que as torna uma espécie de mártir versão 2020, tunada e rebaixada. Eles também se vêm obrigados a sacrifícios como ter de usar máscara para ir a uma loja comprar uma nova camisa xadrez para o São João em casa, em que acompanhará as lives juninas com os amigos do pedal que também vieram de máscara, mas só as tiraram depois de entrar em casa para poder beber a cerveja que chegou há pouco pelo delivery. 
 
Delivery – já que “entrega” é uma palavra que o confinado não praticante ainda não conhece – é um dos fetiches dos integrantes desse grupo: compram sushi, cerveja, 
espetinhos, pizzas, sanduíches, doces e outros itens de primeira necessidade, como tupperware, perfumes e lingeries. Ao pagarem as entregas, os confinados não praticantes pensam assustados na irresponsabilidade desses entregadores que devem estar fazendo o vírus circular por toda a cidade. É preciso ressaltar ainda a coragem desses heróis confinados que fazem seu próprio pão de fermentação lenta uma vez por semana.
 
Os confinados dessa modalidade nunca se esquecem de cuidar de seus entes queridos e sempre fazem chamadas de vídeo para avisar que estão saindo de casa para visitá-los. E está muito claro o quanto as pessoas saem de casa sem necessidade. Aliás, para um confinado não praticante toda saída é supérflua, sobretudo a dos outros.
A obsessão pela informação, os números de casos, óbitos e curados em sua cidade, estado e país faz parte da vida de um confinado não praticante, assim como as lives de Átila Iamarino e as elucubrações sobre o futuro pós pandemia com o Professor Leandro Karnal. 
 
Por fim, o confinado não praticante está ansioso e entediado com essa quarentena, sufocado em seu quintal e engordando por causa das seis refeições ao dia e das muitas fatias de pizza doce, por isso desejam que tudo volte logo ao normal e que possam rapidamente voltar a fazer tudo de que não abdicaram.