Wellington Duarte

04/07/2020
 
Qual a cidade que queremos? Parece que este debate não chega à população
 
 
Natal, de acordo com as estimativas do IBGE, tem 885 mil habitantes, representando 25% de toda a população do RN, ou seja, de cada grupo de 100 potiguares, 25 moram em Natal e se tivermos o cuidado de olhar com um pouco mais de atenção, veremos que 25% da população do nosso estado está espremido em 170 Km², enquanto 75% estão distribuídos em 52.627 Km², e não precisamos ser grandes especialistas em demografia para entender o que esses percentuais significam.
 
E se fizermos um pequeno esforço de raciocínio, e acrescentarmos duas cidades que basicamente se mesclam com a dinâmica de Natal, São Gonçalo do Amarante (102 mil habitantes), quarto maior município em termos de população do RN, e Parnamirim (262 mil habitantes), terceiro maior município do estado em população, ai teremos nada menos que 1.249.000 habitantes, 35% de toda a população do RN e, seguindo o raciocínio expresso acima, 35% da população do estado estará literalmente “socada” em 540 Km², enquanto 65% da população estará distribuída em  52.627 Km².
 
Essas observações são para evidenciar que discutir a forma de como viveremos daqui por diante, principalmente depois de uma pandemia que, além de roubar vidas, destroçou a economia e as duas coisas deverão impactar milhares de pessoas, tanto no seu aspecto social, porque a peste mostrou que o pobre, que foi transformado em “invisível”, é, sem dúvida, o elo mais fraco da cadeia e que o fetiche do empreendedorismo e o sentimento disseminado na última década, de que o pequeno negócio seria a “fortaleza” da sociedade de consumo, foi por água a baixo, se tornaram importantes.
 
Usando um linguajar rebuscado, posso arriscar em dizer, não sendo especialista na área de estudo, que há um processo de conurbação desses três municípios, especialmente entre Natal e Parnamirim, ou seja, o crescimento está, em termos mais populares, misturando as duas cidades. No caso de São Gonçalo do Amarante, essa conurbação é mais localizada, com essa mistura se localizando mais na Zona Norte de Natal.
 
Por isso, quando o prefeito Álvaro Dias, médico que optou por utilizar a pandemia a seu favor, em termos políticos, com ações questionáveis, como a de fazer testes “só com as pessoas dentro dos carros”, na Zona Sul e de distribuir Ivermectina para “prevenir o coronavírus”, embora não se saiba exatamente de onde veio essa, absorvida com sofreguidão pelo chefe do Executivo, mas isso tem sido usado para que o médico tenha uma folga liderança na corrida para comandar a cidade nos próximos 4 anos, conforme pesquisa da Consult, divulgada nesta quinta (2), que lhe dá folgados 32,5% de preferência dos natalenses, bem distante da segunda colocada, a deputada federal Natália Bonavides (PT), com 4,9%, não devemos nos surpreender.
 
A discussão, feita a toque de caixa, da revisão do Plano Diretor de Natal, é uma amostra da esperteza do atual prefeito. O Plano é de 2007 e deveria ter sido revisado em 2017, quando Álvaro era o vice de Carlos Eduardo Alves. Álvaro viu na Pandemia e no Plano Diretor, elementos substanciais para lhe dar força eleitoral. Um atingindo a população conservadora de Natal, especialmente a classe média; e o outro, como captador de apoio dos interessados nas grandes oportunidades de negócios.
 
É verdade que o Plano Diretor teve sua discussão retomada em 2019, mas feito de forma conflituosa, com as várias denúncias do Fórum Direito à Cidade, formado por um grupo formado por professores, alunos de graduação e pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo e Políticas Públicas da UFRN e ativistas preocupados com a garantia do Direito à Cidade e defensores de uma cidade mais justa para os seus moradores, de pouca participação popular, reduzindo-se a discussão proposta inicialmente para 10 meses, foi encolhida para 3 meses. Após a pandemia, a prefeitura acelerou o processo de discussão, imediatamente contestado pelo Fórum, que acusa a Prefeitura de não ter uma transparência tão propalada por Dias.
 
E em que o Plano Diretor afeta a sua, a minha e a nossa vida? Ora, ele é o que desenha a cidade, pois não se permite que um espaço tão pequeno seja ocupado de forma desregulamentada e sem um planejamento, sob pena de termos um aglomerado de gente e não uma cidade. E quando os que se opõe à correria do prefeito denunciam que o que ocorreu foi a elaboração de um novo Plano Diretor, passando por cima do que estava proposto, temos de abrir os olhos e ouvidos, para entender quais as razões objetivas que geraram esse “golpe”.
 
Mesmo os que vivem “protegidos” nos condomínios e espigões, sentem os efeitos de um Plano Diretor, pois, por exemplo, ao afrouxar a proteção ambiental, os efeitos sobre a água que os “bem vividos” podem ser danosos, passando estes e ingerirem coliformes fecais, prejudicando suas preciosas panças. Sem uma adequada visão sobre a malha de transporte coletivo público, podemos imaginar o caos urbano em termos de deslocamento, afetando basicamente os que se espremem nos ônibus e que perdem um precioso tempo de suas vidas sob os efeitos do descolamento, que podem, em 24 horas, representar quase 4 horas, o que convenhamos, é perturbador.
 
Portanto o natalense, o parnamirinense e o são-gonçalense podem estar presenciando o redesenho urbano de Natal, com a marca das empreiteiras, dos poluidores e dos especuladores imobiliários e quando formos pedir ar, espaço e água, será tarde demais.