Renisse Ordine

18/06/2020
 
A história e a luta da sociedade entre passado e o presente que está desafiando o futuro
 
Uma entrevista com o historiador, professor e acadêmico Eddy Carlos Souza Vicente, onde conversamos sobre questões que norteiam a sociedade atual: futuro da educação e a difícil tarefa de ser historiador e professor em uma sociedade que se mostra fortemente capaz de negar a veracidade dos fatos. 
 
Estamos vivendo um momento atípico, e movimentos como “Vidas negras importam”, que se iniciou nos Estados Unidos, demonstram que precisamos conhecer a nossa história, como cidadãos e raças, para que essas lutas realmente sejam validadas e transforme o nosso futuro. 
 
Há dois caminhos: o da regressão e o da progressão, e o nosso entrevistado também nos mostra o porquê dessa escolha não ser uma decisão tão óbvia.  
 
1- Quem é Eddy Carlos?
 
R.: Uma pessoa dedicada à família, ao ambiente rural e, principalmente, ao estudo da História. Alguém que mesmo tendo exercido outra profissão, totalmente destoada da História, por três décadas, nunca deixou de valorizar suas origens e a memória de seus antepassados.
 
2- Quais são os desafios da profissão de historiador no Brasil?
 
R.: Nossa profissão “incomoda” aqueles que estão no topo da hierarquia social. Independentemente do espectro ideológico (Esquerda ou Direita), o historiador tem a nobre e honrada missão de desvendar fatos que muitos preferem que permaneçam nas “trevas” do esquecimento. Não por acaso, a frase famosa do historiador britânico Peter Burke: “A função do historiador é lembrar a sociedade aquilo que quer esquecer”. No caso do Brasil, nunca foram tão agredidos historiadores e demais acadêmicos. Ouso afirmar, talvez com exagero, que atualmente está pior do que durante a ditadura militar. Afirmo porque hoje está mais escrachado o desprezo, que boa parte da sociedade inculta, devota aos historiadores; a ponto de simplesmente inaugurar-se o negacionismo histórico. Ou seja, por mais que se prove que tal fato existiu, com farta documentação, nos deparamos com a mera negação. E isso se estende ao ambiente escolar, pois muitos professores de História, mesmo não sendo alinhados com a Esquerda são rotulados, e perseguidos, por serem “doutrinadores”. Por outro lado, o veto presidencial à regulamentação da profissão de historiador, não me surpreende no atual contexto. Mesmo estando tramitando desde 2009, e tendo sido aprovado pelas duas casas legislativas do Congresso Nacional, o veto era esperado, ainda que com justificativas estapafúrdias. Mas, afirmo que, além do veto, nós existimos. 
 
3- Após a morte do americano George Floyd houve uma onda de manifestações pelos estados norte-americanos pedindo o fim do racismo, qual a sua percepção quanto a esse movimento. Por que George Floyd foi a última gota para cessar o racismo nos EUA?
 
R.: É algo que tem profundas raízes históricas. A escravidão nos Estados Unidos só teve fim durante a Guerra de Secessão (1861-1865), com o triunfo dos Estados industrializados do Norte sobre os Estados Confederados da América. Entretanto, apesar da vitória da União e da libertação dos escravos, estes não foram inseridos na sociedade capitalista que se consolidava, pois os mesmo representavam apenas mão-de-obra barata. Por outro lado, após a derrota da Confederação surge a Ku Klux Klan, que não admite sequer isso, passando a promover espancamentos e linchamentos de negros sob o chamado “tribunal” da Cruz de Fogo. Ao longo do século XX, a Klan intensificou seus ataques, chegando a promover passeatas públicas em prol da “superioridade” branca; em alguns casos com a conivência das autoridades que simpatizavam com o movimento. Na década de 1960, surgem os movimentos de resistência, liderados por Martin Luther King e Malcom X. Ambos exigiam igualdades de direitos, mas foram assassinados por almejarem tal coisa. Entre protestos  e demais casos que não alarmaram tanto a mídia, ocorre o caso de Rodney King em 1992. Abordado por supostamente dirigir em alta velocidade, ele foi brutlamente espancado por quatro policiais brancos. Mesmo a cena de selvageria ter sido filamada por equipes de televisão, os policiais foram absolvidos. Desencadeou-se uma onda de protestos violentos, com destruições em várias partes dos Estados Unidos. Porém, King sobreviveu, só falecendo em 2012. Ainda que tenha havido vários casos de agressões contra populações negras ao longo dos anos seguintes, o caso de George Floyd foi a “gota d’água”. Afinal, o suspeito já imobilizado, foi sufocado até amorte pelo “bravo” policial Derek Chauvin. Os protestos dessa vez, atingiram até a Casa Branca, obrigando Trump a se por “a salvo” em um bunker. É um “basta” que a população afro-descendente está dando à sociedade racista e hipócrita norte-amerticana. E, pela primeira vez, houve um requerimento às autoridades daquele país, para classificarem a Ku Klux Kaln como organização terrorista, oque já devia ter sido feito há muito tempo.  
 
4- É uma questão histórica e social que a igualdade entre as pessoas é mais teoria do que prática, e é clara essa divisão na sociedade.  Em se tratando das manifestações que ocorreu no EUA, o ex-presidente Barack Obama disse que estamos em outro momento de consciência, pois os brancos também estão saindo às ruas pedindo o fim do racismo. No ponto de vista do historiador, como você percebe essa mudança de consciência do homem branco, será realmente uma nova retomada ou poderíamos ficar no modismo? 
 
R.: Por mais que possa parecer incrível, parte da humanidade parece ter evoluído. O fato de pessoas brancas se juntarem aos protestos pedindo o fim do racismo corrobora isso. Mas, estamos longe de atingir a plenitude de uma almejada igualdade. Uma das origens do racismo está obviamente no passado escravista. Mas talvez, a principal delas está nas pseudo-ciências do século XIX, que justificaram o imperialismo europeu na África e depois nas nações do continente americano que se libertaram do colonialismo. Nos referimos ao Darwinismo Social, de Herbert Spencer, e da Eugenia de Francis Galton. E essas mesmas pseudo-ciências estavam ligadas ao processo de expansão e consolidação do sistema capitalista. Assim, a Europa, e depois os Estados Unidos, se apresentavam ao mundo como “superiores”, enquanto que os demais eram os “inferiores”. Por isso que o investimento em Educação, principalmente na área de Humanas e de Ciências tem que ser garantido e não negado. Vejamos o caso do Brasil, onde o racismo é escamoteado de tal forma que um negro, presidente da Fundação Palamares defende a tese de que a escravidão foi benéfica. Não só ele, mas muitos, aqueles que se consideram “brancos” alegando que racismo não existe no Brasil e que tudo é “mi mi mi”. Todavia, no modismo não podemos ficar jamais, sempre combatendo o racismo onde ele se manifestar.    
 
5- Voltando os nossos olhares para o Brasil, como você explica essa pouca adesão a essa consciência, sendo que muitos negros são mortos por diversos motivos, e não somente adultos, as crianças negras se tornaram as principais vítimas das ações policiais e não vemos pessoas se espantarem ao ponto de exigir um basta? 
 
R.: O Brasil é um caso peculiar. O caso do presidente da Fundação Palmares já responde em parte a pergunta. Mas há raízes históricas, tal como nos Estados Unidos, porém de forma diferente. Na nação yankee havia nítida separação entre senhores e escravos nas plantações de algodão do Sul. Lá, mesmo liberto um escravo, ou ex-escravo, jamais seria aceito por parte da sociedade, ainda que tivesse dinheiro. Isso bem antes da Ku Klux Klan surgir. No Brasil, longe de amenizar o horror das senzalas como tentou fazer Gilberto Freyre, tal possibilidade ocorria, pois os senhores luso-brasileiros adotatam a estratégia de colocar em suas fazendas cativos de diversas etnias, muitas das quais eram rivais na África. Assim, era estimulada uma “competição”, onde sempre quem se aproveitava era o senhor. Em alguns casos, escravos que demonstrassem fidelidade ganhavam a liberdade e passavam a perseguir seus irmãos fugitivos, dando origem à odiosa figura do Capitão-do-Mato. Não raro, alguns ex-escravos, por diversos fatores conseguiam amealhar algum pecúlio, passando a se comportar como seus senhores. Essa situação, obviamente, não alterava o ritmo das fazendas escravistas. Com a Lei Áurea e o advento da República, os ex-cativos não foram inseridos na sociedade, permancendo marginalizados, e constantemente vigiados. Mas, o discurso oficial os apontava como vadios, baderneiros, etc. Ainda assim, não foi possível a criação de uma conscientização a respeito do racismo, mesmo com as constantes mortes de cidadãos afro-descendentes, decorrentes de ações policiais; policiais muitos dos quais também negros. Não é a toa que Sérgio Camargo exerce o cargo que não está a sua altura. 
 
6- Na sua percepção, grande parte dos negros brasileiros realmente se considera vítima de racismo ou eles ignoram a própria história? Pois, há negros que acham que a resistência negra é um fator de vitimísmo, não é?
 
R.: Além de ignorar a própria história, ignoram sua cultura, suas origens. Além de Sérgio Camargo, já citado, não podemos nos esquecer de Fernando Holiday, afro-descendente e vereador em São Paulo, que sempre combateu o movimento negro, rotulando-o justamente de vitimismo. Mas invocou a lei, quando foi hostilizado por racistas em uma manifestação; porque lhe convém quando lhe interessa. Mas o Brasil tem outro exemplo, lamentável exemplo. É o caso de Edson Arantes do Nascimento, o famoso Pelé, que mesmo sendo condenado pela justiça, em processo de paternidade, se recusou a receber a filha, Sandra Regina Machado. Mesmo estando à morte, Sandra não recebeu a visita do pai que nunca a aceitou. Ela faleceu no dia 17 de outubro de 2006, aos 42 anos. O rei do futebol limitou-se a enviar uma coroa de flores em nome de uma de suas empresas. Contudo, devido ao caso do garoto metralhado dentro de casa pela polícia no Rio de Janeiro e do outro menorzinho, morto em Pernambuco, que estava sob os “cuidados” da patroa branca, teve início uma onda de protestos no Brasil. Ainda que em menor intensidade, ela está relacionada ao ocorrido com Geroge Floyd.
 
7- Outra questão sobre as manifestações são essas ações, digamos justiceiras, em que os manifestantes pedem pela retirada dos monumentos das figuras históricas que foram favoráveis à escravidão. Aqui no Brasil, uma estátua que está sendo ameaçada de retirada do bandeirante Borba Gato, que está exposta em São Paulo. Você acha que isso resolveria ou amenizaria a questão da escravidão no país?
 
R.: Toda ação gera uma reação. Tais estátuas ao redor do mundo representam ou imortalizam algo realizado pelos representados. No caso do racismo declarado e violento, como mortes constantes e impunes, com certeza o ódio vai ser canalizado também às estátuas e monumentos que simbolizam a repressão. No entanto, destruir esta ou aquela estátua, por mais razões que tenham os autores, não resolve a situação, pois os verdadeiros praticantes de ações contra a vida estão encastelados em palácios, em bunkers e contam com o aparato repressor. No momento da derrubada de uma estátua a raiva é amenizada, mas depois a situação prossegue, talvez até inalterada. No caso da estátua de Borba Gato, ela representa um passado de escravidão e de extermínio também, mas dos indígenas, durante a fase do bandeirismo de preagem. Ou seja da caça ao índio para escravizá-lo. Como a maioria dos silvícolas “vendia” caro sua liberdade, inúmeros foram trucidados pelos bandeirantes. Este fato seria um motivo para a derrubada da estátua, que alías, nunca deveria ter sido construída. E não é por causa dos índios. Se nossos representantes estudassem a História e a levassem a sério, iriam lembrar-se do crime sem castigo de Borba Gato. Em 1681, a Coroa enviou um representante para a região das minas, para conferir as descobertas de Fernão Dias. Este funcionário era Dom Rodrigo Castel Blanco, nomeado pelo rei Administrador-Geral das referidas minas. Como Fernão Dias já tinha falecido, somente o genro, Borba Gato sabia o local exato das minas e se recusou a revelar o local. Entrando em atrito Gato assassinou o administrador, refugiando-se em seguida nas matas, onde ficou por 18 anos. Ora, por ter matado o administrador, isso configurava crime de lesa-majestade, punível com a forca. Contudo, como a cobiça “falou” mais alto, Borba Gato foi perdoado, desde que revelasse o local das minas. E como prêmio adicional foi “promovido” a Guarda-Mor das minas de ouro. Na realidade, os bandeirantes somente foram alçados a condição de heróis, durante a Revolução Constitucionalista de 1932. E tal trabalho esteve sob responsabilidade de dois historiadores paulistas, Afonso D’Escrangnolle Taunay e Alfredo Ellis Júnior. A estátua de Borba Gato em São Paulo foi inaugurada em 1962. Brasil sendo Brasil.
 
8- Uma situação contrária ocorreu na Inglaterra, com a estátua poeta e ator Alfred Fagon, em 1987, quando manifestantes jogaram um produto parecido com água sanitária, para embranquecê-lo. Diante disso, e vendo que há duas lutas antagonistas, você acredita que continuaremos a viver nesse paralelo de opiniões, ou que um pensamento irá prevalecer mais do que o outro?
 
R.: Mesmo significando um protesto, o caso configura racismo, pois ao jogar o alvejante, passa-se a imagem que a cor negra é comparada com “sujeira”, algo imundo a ser removido. Neste caso, creio que a ofensa ou o insulto, foi pior do que se a estáuta tivesse sido derrubada. Há sim, duas facções em luta. Uma que cansou de abusos, arbitrariedades, preconceitos e violências que vem sofrendo desde seus antepassados, sequestrados na África e trazidos para trabalhar forçadamente com o único propósito de enriquecer seus senhores. A outra, que não admite que essa mesma ouse questionar seu “lugar” na escala social que lhe fora destinado, porque na maioria das vezes, “Deus assim o quis”. Uma eventual igualdade de direitos sociais pressupõe uma perda de privilégios. Não vejo, infelizmente, nem a longo prazo, a cessação dessas disputas, pois o lado “branco” não admite dividir espaço com aqueles que são julgados “inferiores”. Porém, o que estes não devem, e nunca, é aceitar o que lhes for destinado pelos outros. Caso contrário, o que pode ocorrer é um novo Apartheid, como existiu na África do Sul, entre 1910 e 1990. Lá somente teve fim, ainda que com alguns ajustes necessários, quando a comunidade internacional, incluindo empresas de grande porte, passou a boicotar o país, impondo severas sançoes econômicas, que praticamente o levaram a bancarrota. O então presidente Fredrick de Klerk, não teve saída senão libertar Nélson Mandela, líder do CNA, Congresso Nacional Africano, preso desde 1963. Em 1994 Mandela se tornou o primeiro presidente negro de seu país. Novamente afirmo que somente a Educação para todos, políticas sociais sérias é que podem possibilitar uma eventual mudança.  
 
9- Sobre a educação, nessa época de pandemia e todo o caos causado pelo vírus. Sendo você também um professor, como você percebe que a história da educação será escrita daqui pra frente?
 
R.: Estamos vivenciando um período atípico. Tudo foi afetado e nada será como antes. Assim como na Educação. Devido a situação, nas escolas foi adotado o sistema de aulas remotas, ou seja, on-line e à distância. algo que muitos políticos e empresários já vem sonhando há tempos. Porém, a sociedade ná estava, e não está preparada para essa modalidade de ensino. Nós estamos nos habituando com isso, não há outra saída. Mas, se por um lado “resolvemos” uma situação criamos outra, pois acabamos por excluir uma ampla parcela de alunos que não tem acesso a computadores, e muito menos à internet. Estamos, infelizmente, legitimando uma exclusão contra a qual sempre nos opusemos. Não sabemos como será no pós-pandemia; nem quando será essa pós-pandemia.
 
10- Abordando a questão de sociedade, há uma citação de Umberco Eco que diz “O drama da internet é que promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.  Você concorda com essa afirmativa e considera que sem internet não estaríamos vivendo essa nova era em que a ignorância é motivo de orgulho?
 
R.: Concordo plenamente com essa frase. Vamos nos recordar do advento da televisão. Quando ela chega, principalmente no Brasil, era para exercer uma função educativa. Aos pucos, no entanto, ela foi “apropriada” pelas empresas que promovem “cultura de massa”. Na realida foi o “pão e circo” em nova roupagem. A televisão acabou idiotizando a populção, entre as décadas de 1980 e 1990 , principalmente. A música “Televisão” dos Titãs, de 1985, expressa muito bem isso. Quando imaginávamos que não podia piorar, piorou. Quando a internet surgiu, a esperança é que fosse um instrumento tecnológico voltado para a Educação e Conhecimento; e não apenas para “encurtar” a comunicação em qualquer ponto do planeta. Obvio, que quem utilizar seriamente a internet, isso pode ser alcançado. Mas não é o que se constata. A esmagadora quantidade de sites e aplicativos “idiotizantes” superou em muito a televisão, mantendo as devidas proporções. Por outro lado, o uso contínuo, constante, das chamadas redes sociais, acabou por consagrar um processo de emburrecimento, que se percebe atualmente, principalmente no Brasil. E tais “serviços” contribuem por tornar praticamente tornou desinteressante para os usuários da internet, algo que ela oferece em termos de literatura, por exemplo.. Muito raramente, aqueles que se transformaram em “escravos digitais”, acessam o sitema PDF, para ler livros, que não estão disponibilizados fisicamente. É nessa situação, que surgiu o chamado “pós-verdade”, negacionismos histórico e científico, a ponto da afirmação esdrúxula de que a terra “é plana, por isso se chama planeta”. É lamentável, mas trata-se de uma sociedade que despreza anos de pesquisa, estudos e produção de conhecimento, em prol “de um zap zap” da vida. Há as exceções, obviamente, raras, mas existem. 
 
11- Para finalizar, a partir de seus estudos e todo o seu conhecimento, qual o futuro você acredita que teremos como nação?
 
R.: Como historiador e professor, sou muito cético quanto á essa questão. Como citei nas perguntas anteriores, no caso aqui há também raízes históricas. Voltemos no processo de independência do Brasil. A vinda família real lusitana para o Brasil em 1808 alterou toda a estrutura vigente do Pacto Colonial. Da noite para o dia, a colônia ganhou status, porque a monarquia portuguesa, fugindo de Napoleão se estabelecera aqui. Em 1815, o Brasil é elevado a condição de Reino Unido, Brasil, Portugal e Algarves. Porém, em 1820, Dom João VI  é obrigado a voltar para Portuga, devido a Revolução do Porto, deixando o filho como regente. Ora, diferente do ocorrido com as colonias espanholas, a elite luso-brasileira não precisou romper pela violência, com a metrópole. Não que não tivesse havido guerras; houve, mas em menores proporções, afinal, o libertador do Brasil era um príncipe português. Neste contexto, as elites se preocuparam apenas em conquistar o Estado, para depois preocupar-se com um projeto de nação. Bem diferente das Treze Colônias, que se emanciparam da Inglaterra, enfrentando duas guerras, em 1776 e 1812. No caso brasileiro, foi possível manter a unidade territorial, mesmo com uma multiversidade étnico-cultural. O episódio das revoltas na Regências evidencia bem isso. Ouso afirmar que dificilmente o Brasil será uma nação, a menos que algo muito sério e responsável seja feito, beneficiando todos e não uma pequena parcela, como ocorre há tempos. O brasileiro é composto pelos diversos regionalismos. Ele se identifica como o paulista, o valeparaibano, o gaúcho, o mineiro, o nordestino, o quilombola, o indígena, etc. Via de regra, infelizmente, o cidadão brasileiro só se identifica como de fato brasileiro, de quatro em quatro anos, época da Copa do Mundo de futebol. Passou isso e, principalmente se o país for mal na competição, ele “deixa” de ser brasileiro. Com isso ainda estamos “pensando” em um projeto de nação.