Ana Paula Campos

01/06/2020
 
Seu silêncio não vai proteger você
 
 
Fiquei completamente destroçada com o depoimento arrebatador da minha amiga e colunista do Potiguar Notícias, Bia Crispim, na última sexta-feira.  Foi igualmente doloroso ouvir minha amiga, Lucélia Feliciano, revelar durante nossa live as violências pelas quais passou e que ainda vem passando meninas negras nas escolas do RN. Depois de refletir sobre suas palavras, comecei a pensar também sobre quem eu era antes de me descobrir negra e sobre quais culpas eu carregava pelo que passei. 
 
Bia e Lucélia, se puderem, leiam meu relato como um exercício de empatia e unindo nossas vozes, espero sinalizar para todxs que já sofreram com o racismo e a homofobia, a mensagem de que não estão sós.
 
Como eu já relatei em outros momentos, eu era morena e passei boa parte da minha infância e adolescência sentindo-me feia por eu não fazer parte do seleto grupo cujo fenótipo era considerado padrão de beleza. Quando entrei na faculdade aos 18 anos, convivi com pessoas diferentes e descoladas. Eu queria me encaixar e ser aceita, então, assumi o papel da garota brincalhona. Como eu me saía bem nos trabalhos das disciplinas e fazia as pessoas sorrirem, era benquista nos locais de convivência social. Por ser uma das melhores alunas da sala e apresentar bom desempenho acadêmico, fui indicada para ser bolsista do CNPq, mas, apesar disso, continuava sendo conhecida como “a nêga doida”.
 
A escritora e ativista Lélia Gonzales e a psicanalista Neusa Santos Souza discutem essa questão em suas obras. Para elas, mulheres negras que sofrem com a necessidade de fugir da possibilidade de serem enquadradas em um grupo historicamente marginalizado e condenado por estereótipos negativos, tendem a assumir a postura de “mulheres engraçadas” ou “a gostosa do grupo”. Este foi o meu segundo passo. Aceitei a condição de ultra- sexualizada imposta pela sociedade às mulheres negras e passei a “tirar proveito disso”, ou, pelo menos, era o que eu pensava: que estava no controle da situação.
 
Até bem pouco tempo, ou eu estava sofrendo em um relacionamento tóxico ou por ter saído de um, tal qual a escritora negra Audre Lorde (que alívio quando percebi que não estava só!). Eu não tinha tempo para parar e refletir sobre quem eu era, quais eram as minhas reais necessidades e o que eu merecia de fato. Nesse período de negação da identidade negra, aceitei permanecer em relacionamentos destrutivos porque tinha medo de ficar só e imaginava que, na minha condição, não poderia querer mais.
 
No momento em que o namorado de uma amiga (ambos brancos) se aproximou de mim e disse: “eu nunca comi uma crioula”, a realidade caiu sobre mim. Por mais que eu alisasse meu cabelo e me vestisse como uma mulher branca, eu jamais seria uma. Na ocasião não disse nada. Fui para casa e chorei. Sentia que a culpa era minha, mas eu não sabia exatamente pelo quê. Também não precisava. Ser negra – ou crioula, com ele mesmo disse – já constituía motivo suficiente para carregar toda a “imoralidade” nos ombros.
 
Passei a explorar meu corpo como arma de sedução. Eu não fazia mais as pessoas sorrirem; eu era o alvo da piada. Tornei-me o motivo das chacotas: “Quem foi que você ainda não pegou?” Passei, também, a naturalizar as violências sexuais às quais fora submetida. Fui estuprada, mas na ocasião busquei as mais remotas explicações para justificar a ação daquele outro homem. Aliás, só compreendi que aquela agressão era estupro anos depois, já mais madura, tendo silenciado acerca do fato durante muito tempo, trazendo-o à baila somente agora.
 
Assim como Audre Lorde, demorei a reconhecer e aceitar quem eu era e a buscar informações salutares ao meu fortalecimento intelectual, emocional, social e político. Apenas próximo dos 40 anos iniciei leituras e estudos sobre o feminismo negro e, hoje, ainda me considero em formação de identidade. Não é fácil se libertar das amarras do racismo e do machismo. Não é fácil sair da zona de conforto e vir a público me desnudar totalmente, ainda que, para nós, a zona de conforto não seja tão confortável assim.
 
Se hoje desnudo a alma enquanto escrevo é para que outras meninas/ mulheres não se sintam culpadas pelo tempo em que silenciaram ou que se subjugaram a relacionamentos nocivos, vivendo uma existência negativa de significações. Não é tarde demais para reagir. Nunca é tarde para despertar desse pesadelo e se fortalecer na condição de mulher negra. Você pode evitar falar ou até mesmo ler sobre o assunto, mas seu silêncio não vai protegê-la. Compreenda: você não está só. Existe um legado de mulheres que lutaram por nossa liberdade. Existe um arsenal de autoras que nos abrem os olhos, e como se tudo isso não bastasse, estarei aqui se precisar.