Renisse Ordine

16/04/2020
 
 
A saga de um autor independente 
 
 
O grande sonho de qualquer escritor é ver concretizada a gestação de seu livro, vê-lo personificado nas mãos de leitores. Porém, se o autor não tiver a sorte ou a oportunidade do seu trabalho ser um das histórias escolhidas para ser custeado pelas grandes editoras, o sonho terá que sair do próprio bolso. O que poderá adiar o nascimento de seu filho um pouco mais. 
 
Diante dos problemas socioeconômicos do nosso país, poucos escritores têm condições de buscar uma publicação independente, ou seja, bancar o lançamento do seu livro com recursos próprios. Para evidenciarmos o que ocorre no mercado editorial, na visão do autor, conversamos com dois autores nacionais, Lucas Mota (Curitiba, PR) e Eddy Carlos Souza Vicente (São José dos Campos, SP) que conseguiram publicar o seus livros, optando por diferentes caminhos. 
 
No Brasil, há várias editoras menores, que também trabalham de forma independente, que produzem livros com muita qualidade, porém o custo, por muito das vezes é alto e o retorno financeiro para o próprio autor, não é garantido. Exige um trabalho árduo por ambas as partes, mas não deixa de ser uma grande oportunidade para o escritor. 
 
Grande parte das editoras independentes são muito zelosas e se empenham junto com o autor, seja no cuidado e respeito com a obra, como também, na divulgação em redes sociais ou na representação direta com as livrarias. Buscando, com isso, auxiliar no sucesso do autor. Esse é um dos caminhos, mas com a internet outras oportunidades surgem, como é o caso do escritor curitibano, Lucas Mota, quando no lançamento de seu primeiro livro físico “Boas meninas não fazem perguntas”.
 
O autor lançou o projeto de seu livro no Catarse- Financiamento Coletivo do Brasil, para conseguir o apoio de interessados na literatura e deste modo, realizar o seu sonho de ver o seu livro, circulando pelo Brasil afora, e  quem sabe, pelo mundo também. Uma atitude corajosa, que requer muita dedicação e esforço próprio para o projeto ganhar apoio. E no seu caso, realizou, com êxito, o seu objetivo. 
 
 “Para um autor independente que não tem público cativo na internet, o maior desafio é a divulgação. Em termos de escrita, existe muito material de estudo e curso disponíveis, dos quais, eu sou um aluno assíduo. Sobre a questão financeira, o Catarse e outras plataformas de financiamento coletivo permitem a autopublicação. Não estou usando editoras, montei minha própria equipe editorial e escolhi uma gráfica conhecida pela qualidade em suas impressões e acabamentos. O que sinto maior necessidade é a divulgação, fazer o projeto ficar mais conhecido, sabe?”
 
Para o escritor, historiador e professor, Eddy Carlos Souza Vicente, autor de dois livros de forma independente: “Uma janela no Tempo” (2015) e “Sitio Santa Helena. Uma perspectiva histórica.” (2016), o lançamento de um livro representa uma triste realidade para os autores que desejam ver os seus trabalhos publicados. Em entrevista, ele aponta atitudes que podem dificultar e outra que pode auxiliar o escritor independente.
 
“De fato, apenas as grandes editoras dominam o assim chamado mercado editorial no Brasil. É uma “luta” desigual, pois as referidas editoras já consolidadas não vêm com “bons olhos”, eventuais concorrentes, que são as pequenas editoras que com toda a razão buscam seu referido espaço. Como também, há pequenas editoras que não abrem espaço para determinados escritores; principalmente os iniciantes. Uma prática comum é a editora impor um determinado número de tiragem dos exemplares. Outras, no entanto, agem de modo interessante, como se verifica em pequenas gráficas que atuam como editoras. Se o autor quiser imprimir um exemplar, ela o faz; mais tais estabelecimentos são raríssimos. Há também, e não podemos deixar de registrar que o Brasil não possui tradição em leitura. Ainda que existam inúmeras feiras literárias que ocorrem constantemente, leitura na nossa sociedade é vista como algo de “desocupados”, típico de uma nação que se tem mostrado cada vez mais arrogante, preconceituosa, estúpida e... burra. Mas não podemos desistir e muito menos desamparar ou desmotivar aqueles que se dedicam ao nobre ofício das letras”.
 
Dedicar-se aos livros no Brasil é um ato de rebeldia, pois já não é fácil escrever, digamos que é necessária dedicação e uma pitada de dom para que as histórias sejam escritas com qualidade. E se um livro não ganha forma, torna-se uma grande desilusão para o autor.  Já, ser lido representa outra batalha. 
 
È uma saga: pesquisar, escrever, sorte, dinheiro, editora, divulgação para que o livro chegue até ao leitor, que é o agente transformador da história. Sem um leitor uma história não desabrocha e não ganha asas. As dificuldades são muitas, o escritor torna-se um guerrilheiro, que se arma de esperança, e precisa se cercar de ajuda e apoio por todos os lados para publicar o seu livro. 
 
O que podemos fazer? Valorizar o escritor independente, apostemos juntos em seus sonhos. Divulgue e fale sobre eles em suas redes sociais, e nos clubes literários, já que ultimamente esses encontros vêm crescendo consideravelmente pelo país.