Alfredo Neves

07/04/2020
 
Iaperi Araújo e a Arte Naïf
 
 
Em qualquer pesquisa, seja no mundo virtual, em livros impressos, ou conversando com amigos em rodas de cerveja, uísque, café, ou perguntando aos curiosos sobre a História da Arte, todos são unânimes: “A Arte Naïf, com a velha trema no “i”, é uma arte ingênua, primitivista e subversora das tradições no que se refere aos resultados esperados numa pintura.” E é isto, por enquanto, que se define o termo, sendo originário da língua francesa. Pois bem, não esqueçam deste primeiro parágrafo, mais adiante detalharei mais um pouco sobre o papel dessa visionária Arte, que de ingênua não tem é nada, ao contrário daqueles que se apegam a conceitos, eu, particularmente, entendo se tratar de uma técnica de forte impacto na narrativa do cotidiano das cidades e das culturas.
 
O nosso artista maior, um dos precursores e mais proeminentes divulgadores da Arte Naïf no Rio Grande do Norte, no Brasil e no mundo: Iaperi Soares de Araújo, Iaperi, ou como é mais conhecido, Iaperi Araújo, é natural da cidade de São Vicente-RN, onde nasceu em 1946.  Como crítico de arte tem colaborado com diversas exposições e prefaciado livros de artistas em vários lugares do Brasil. É ainda escritor, desenhista, pintor, contista, poeta e médico formado pela UFRN. No livro Impressões Digitais Vol. 2, do escritor Thiago Gonzaga, Iaperi Araújo se define como um homem voltado para a cultura do seu povo, e afirma que tudo o que ele faz existe essa marca. E isto está presente em sua pintura, nas pesquisas e nos textos de ficção. O seu impulso criativo vem em qualquer momento, e isto pode ser por influência da vida cotidiana ou gestado em um sonho e vai amadurecendo em sua cabeça. 
 
Iaperi é irmão de Iaponi Araújo, saudoso mestre da pintura Naïf do nosso estado. Filho de Dona Milka Soares e o seu pai Quincas Araújo, ex-prefeito à época da cidade de São Vicente. Iaperi Araújo foi redator do Diário de Natal, superintendente do Teatro Alberto Maranhão, foi ainda presidente da Fundação José Augusto, Secretário de Cultura do município de Natal, é membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, ocupando a cadeira de Número 23, que tem como patrono Antônio Glicério.  Já esteve em outros espaços culturais no estado.  Atualmente, com Dione Caldas Xavier, Isaura Maia e Geruza Câmara, realizam desde 2016 o Salão Dorian Gray de Arte Potiguar, através da Sociedade dos Amigos da Pinacoteca Potiguar, contribuindo sobremaneira com as artes plásticas na área da pintura, escultura e artesanato. 
 
Tendo convivido com artistas e intelectuais contemporâneos importantes, como o pintor e poeta Newton Navarro (1928 – 1992), o folclorista e etnógrafo Câmara Cascudo (1898 – 1986), a poeta e bibliotecária Zila Mamede (1928 – 1985), escritor, antropólogo e juiz Veríssimo de Melo (1921 – 1996), escritor Manoel Rodrigues de Melo (1907 – 1996), com os atuais como o advogado, poeta e escritor Diógenes da Cunha Lima (1937 - ), escritor Manoel Onofre Júnior (1943 - ), o escritor Nei Leandro de Castro (1940 - ), o cronista, jornalista e acadêmico Vicente Serejo (1951 - ) e tantos outros da nossa cultura local e nacional, Iaperi Araújo já se insere merecidamente numa lista seleta de artistas que escrevem a nossa história de forma inquietante e representativa.
 
Como escritor Iaperi Araújo tem uma vasta narrativa sobre a cultura popular, o cangaço, as personalidades que fizeram história, a formação social e política da sociedade potiguar e outros temas que merecem uma visita pelos intelectuais e pessoas interessadas nas questões da literatura do Rio Grande do Norte e do Brasil. Destaco os seguintes livros: A Medicina Popular, este com várias edições, de 1981 até 2011; Elementos da Arte Popular (1985); No Rastro dos Cangaceiros (2009); Na Capitania Del Rey (2014); Chão de Epidauro (2012); Januário Cicco – Um Homem Além do Seu Tempo (2000); Angico 1938 (2013); Os Habitantes do Sonho (1992) e uma lista vasta que recomendo aos leitores da coluna. 
 
Pois bem, continuemos então o primeiro parágrafo, antes de adentrarmos sobre as telas do nosso artista em comento, falando mais sobre a Arte Naïf. Como vimos o termo é de origem francesa que significa “ingênuo’. Os artistas desta escola são chamados de artistas primitivistas.  As suas técnicas são únicas e cada um adota o seu próprio estilo. As características mais importantes são: o autodidatismo, resultado da inexistência de formação acadêmica no campo artístico; recusa ou até mesmo desconhece o uso de cânones da arte acadêmica; composição plana, bidimensional, tende à simetria e a linha é sempre figurativa; não existe perspectiva geométrica linear; o artista não utiliza as regras da perspectiva; detalhamento das figuras e dos cenários; colorido exuberante e pinceladas contidas com muitas cores. Infiro que, os termos aplicados às artes, ou partem dos próprios criadores para definir as suas criaturas, como resultado das suas ações artísticas, ou se originam de críticos da arte para definir o que eles imaginam ser o ideal para ser aplicado aquilo que foi criado, tanto como uma crítica positiva ou uma exortação negativa ao movimento.  
 
Não vejo nada de ingênuo na Arte Naïf, com base nas técnicas adotadas, tanto no que se refere ao grau de conhecimento dos seus praticantes ou ao resultado do que eles produzem. A História da Arte tem nos apresentado artistas que passaram por diversas ondas pictóricas, e houveram mutações de estilos ao longo dos tempos em que eles pintaram. Isto ocorreu tanto na passagem do impressionismo ao neoimpressionismo, como do figurativismo de Picasso ao Cubismo de Braque, mostrando a ausência de perspectivas, de detalhamento das figuras e dos cenários, tampouco se notou em muitas produções tridimensionalidade, ou algo do gênero. Poderia citar ainda pintores abstratos, como Piet Mondrian, Wassily Kandinsky e os da conhecida Escola de Nova Iorque, chamados Expressionistas Abstratos como Jackson Pollock (1912 – 1956) e Mark Rothko (1903 – 1956), que pouco recorreram às técnicas renascentistas ou ao regionalismo americano. 
 
Com a sua origem na Europa, notadamente na França no século XIX, vanguardistas viam que esses artistas se dedicavam às artes como passatempo. Isto, talvez, tenha contribuído para a cunhagem do termo “ingênuo”. A Obra O Alfandegário, de Henri Rosseau (1844 – 1910), fez com que o termo Naïf fosse utilizado pela primeira vez. Os principais pintores no Brasil são: Emídio de Souza (1868 – 1949), Antônio Poteiro (1925 – 2010), Wilma Ramos (1940 – 2009), Djanira da Mota e Silva (1914 – 1979), mestre Vitalino (1909 – 1963) e tantos outros. No Rio grande do Norte, além de Iaperi Araújo, há ainda pintores Naïfs como podemos destacar: Vantenor de Oliveira, o Macauense Roberto Medeiros, José do Vale,  Maria do Santíssimo (1890 – 1974), Iaponi Araújo (1942 -  1996), Gilvan Bezerril (1928 – 2010), Diniz Grilo (1956 – 2008) e tantos outros que abraçaram e técnica Naïf.
 
Os quadros de Iaperi Araújo descrevem os costumes do Nordeste, as festas populares, bem como as manifestações alegóricas e o imaginário popular. As suas pinturas Naïf tocam corações rebeldes e mentes impacientes, e repassa para cada observador, num olhar mais apurado, toda uma parte da nossa gente numa tela de 21 x 21 cm, por exemplo.  As telas Graça Divina, São Sebastião Sertanejo, Ex-Voto de Doença, Jesus Morre na Cruz e Verônica Enxuga a sua Face, só para citar algumas, são obras marcantes do artista dentro da proposta Naïf.
 
No Livro Dicionário da Pintura Moderna (1981, p. 255), um livro que ganhei recentemente do professor Homero Costa, e que sempre recorro para realizar as minhas pesquisas no campo das artes, Franz Meyer detalha que: “É por igual errôneo considerar esses primitivos como “pintores de domingo”, pelo ofício que inventaram instintivamente, são verdadeiros “profissionais” da pintura.” E continua: “Estes pintores, parece, encontram mui naturalmente lugar na história da pintura moderna: assim o alfandegário Rousseau, humilde criador de obra magnífica em que coincidem milagrosamente a imaginação do homem e a realidade do mundo, aparece como um dos grandes mais velhos que se encontram nas origens da arte moderna; toma lugar não longe de Cézanne, Gauguin e Van Gogh, seus contemporâneos.” Por essa razão, recomendo que todos possam tanto virtualmente como presencialmente visitarem, quando oportunamente, qualquer exposição de Arte Naïf em nossa cidade, no Brasil ou no mundo.  
 
Iaperi Araújo é mais um artista renomado do nosso estado, e com exposições importantes como a 2ª Bienal Brasileira de Arte Naïf (1994), Bienal Naifs do Brasil – Piracicaba-SP (1998), Os Milagres do Povo Brasileiro (1981), 1º Salão de Artes Plásticas – Rio de Janeiro (1966) e diversas importantes pelo país.
 
Fontes de Pesquisa:
 
MONTEIRO, Jacy; Dicionário da Pintura Moderna, 1981, p. 255
GONZAGA, Thiago; Impressões Digitais Vol. II, 2014
GOMBRICH, Ernest Hans; A História da Arte, 2006
https://www.historiadasartes.com/nobrasil/arte-no-seculo-20/arte-naif/   
Acessado em 02/04/2020.
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa23349/iaperi-araujo 
Acessado em 25/03/2020