Cefas Carvalho

04/03/2020
 
Comentarista de portal é versão moderna do ´Médico e o Monstro`
 
 
É bem conhecida a história de "o Médico e o monstro", romance com elementos de ficção científica e terror, escrita pelo escocês Robert Louis Stevenson e publicada em 1886. Na trama, um pacato e educado médico, Dr. Jekill transforma-se de vez em quando no violento e terrível Mr. Hyde.
 
Se existe uma versão 2020 desta criatura, podemos dizer tranquilamente que são as pessoas que comentam em portais ou em redes sociais de sites de notícias.
 
Como por dever profissional tenho de ler matérias em portais e seus comentários e também sou um dos editores da página no Facebook do Portal Potiguar Notícias, sou obrigado a ler o que as pessoas comentam. Há bastante coisa bacana e construtiva, claro. Mas, boa parte dos comentários é feito de ódio, desconhecimento e agressividade.
 
Que boa parte da população (logo, dos internautas) está cansado da política tradicional, é compreensível. Mas, acho impressionante que se publique matérias envolvendo (na manchete e na foto) políticos de renome nacional ou estadual, para os comentários de ódio começarem segundos após a postagem. Não faltam adjetivos. Quando o político é homem e na faixa dos 40/60, é "ladrão", "corrupto", "safado". Quando é mulher, seja qual cargo político for, o nível vai bem para baixo: "Vagabunda", "cadela", "anta".
 
Como jornalista e escritor, sou duplamente curioso em relação às nuances da alma humana e volta e meia vou lá investigar o perfil no `hater`, até para conferir se trata-se de um perfil fake/robô ou de uma pessoa real. Pelo menos no Facebook do PN, quase todos que comentam são reais. Assustadoramente reais. Senhores de idade com fotos joviais em casas de praia. Jovens que visivelmente estão procurando emprego. Senhoras simpáticas cheias de fotos com netos.
 
Daí o espanto: Fico imaginando uma senhora de dia fazendo bolo de cenoura com chocolate para os netos e de noite, no notebook, chamando governadora, presidenta e deputadas de "vadias" e torcendo para que tenham câncer e morram.
 
Como e quando começou essa banalidade do mal, como diria Hannah Arendt? Será a impunidade e invisibilidade que a internet proporciona que torna essas pessoas tão agressivas? O que se passa na alma delas que vem à tona de maneira tão rápida essa vontade de ofender, de agredir verbalmente pessoas que ela não conhece pessoalmente e que muitas vezes faze apenas uma projeção?
 
Sei que de louco todos nós temos um pouco. Mas, de médico de de monstro, os comentaristas de portais e redes sociais estão passando do ponto. Péssimo para a civilidade, para o coletivo. Para a humanidade, mesmo.