Daniel Costa

20/02/2020
 
A VISITA DO TEMPO
 
 
Ele saiu sem falar com ninguém. Encheu a mochila de roupas e deixou a casa quando todos já estavam dormindo, ou quem sabe, distraídos assistindo à Sessão de Gala. Abriu a tranca da porta gradeada com cuidado, afagou o Cocker Spaniel com uma das mãos e se mandou ruminando o silêncio. Não sei se agiu assim por vergonha. Afinal de contas, dizer à família que a namorada estava grávida, aos 18 anos, é uma batalha que nem todos estão dispostos a travar.
 
Mas ele também não falou nada para os amigos, embora todos estivessem juntos comendo um sanduba e bebendo cerveja em copões descartáveis no Trailer do Primo, um dia antes. Isso pareceu estranho e me fez pensar que talvez o motivo de sua partida soturna tenha sido uma espécie de grito de liberdade, como se ao assumir a paternidade e o aluguel de uma quitinete ele tenha sentido que ultrapassou a barreira dos sujeitos que precisam dar satisfações.
 
Não lembro bem como fiquei sabendo da notícia. É possível que eu tenha subido no muro que divisava as nossas casas, como sempre fazia antes de gritar pelo seu nome e vê-lo, logo em seguida, abrindo um sorriso de dentes brilhantes, como quem já sabe que naquela hora o único tema possível seria o de um convite para ir ao Pedrão. Só que daquela vez ele não deu as caras, e talvez sua irmã tenha aparecido e dito que o meu amigo havia esporado o cavalo.
 
O que interessa é que o fato representou um daqueles momentos em que a gente sente fisicamente a passagem do tempo, como se um canivete estivesse a rasgar todas as veias dos braços, até então ocultas por uma fina camada de pele, que encobria a verdade que estava bem ali, tão próxima à superfície, mas invisível aos olhos.  
 
Ele foi embora porque não era mais um adolescente. Na verdade, já não éramos mais adolescentes. Ao sair de casa, ele cortou o último fio que nos separava da vida adulta levando consigo as lembranças dos jogos de bola na sua casa, das tardes de conversa sob a sombra do jambeiro e das noites na calçada encharcadas de Dom Bosco e da voz melódica de Tarja Turunen.
 
As provas do vestibular se avizinhavam. A necessidade de ter que escolher uma profissão era inadiável. O momento de encaixotar tudo aquilo no fundo da memória havia chegado. Só agora, depois de muitos anos, quando fico sabendo que o seu filho já beira a maioridade e que ele será avô, é que essas lembranças emergem. E eu novamente sinto a visita cruel do tempo.