Ana Paula Campos

17/02/2020
 
Porta dos Fundos e o novo Santo Index 
 
 
Sentei para assistir ao especial de natal do Porta dos Fundos. Confesso que, à primeira vista, fiquei sem conseguir expressar minha opinião. Boa parte de uma vida com formação católica ainda exerce muito poder sobre o meu senso crítico. O que é certo é o que está na Bíblia. Ou, pelo menos, era isso que eu pensava antes de ler outros livros que não este.
 
Pois muito bem. Acesso as redes sociais e me deparo com um dilúvio de posts revoltados. “Com a fé não se brinca!” Mas de qual fé estamos falando exatamente? Exclusivamente da fé cristã, ou as demais religiões também merecem respeito?
 
Em minhas visitas às escolas públicas, tornou-se rotina conhecer meninos e meninas candomblecistas que sofrem com piadas e julgamentos, mas o sofrimento deles/as vai além do riso. No último ano, o número de ataques a terreiros aumentou em 50%, e isso não lhe causa indignação? A própria estátua de Iemanjá localizada na Praia do Meio foi alvo recentemente de ataques nas redes sociais sob o disfarce de que “era só uma brincadeira”.
 
Mas voltemos nosso olhar para a Igreja Católica. Durante anos a igreja promoveu e apoiou guerras santas, além de que foram incontáveis os casos de abuso sexual contra meninos, praticados nos templos por religiosos, mas isso não lhe causa indignação?
 
Compreendo que minhas colocações podem provocar reações de, no mínimo, inquietação, mas procure pensar para além da Bíblia e com base em fatos históricos. Vejamos.
Em 1559, foi criada uma primeira versão do Index Librorum Prohibitorum, o Índice dos Livros Proibidos pela Igreja Católica. Nesse documento, constavam livros que iam contra os dogmas cristãos e que possuíam conteúdos considerados “impróprios”.
 
Inicialmente, o objetivo do Santo Index era conter o avanço do protestantismo, liderado por Martinho Lutero, quando este passou a questionar ações incoerentes da Igreja Católica, publicando 95 teses como uma reação contrária à venda das indulgências, por exemplo, que era o preço pago pela remissão dos pecados dos fiéis, o que, aliás, acontece hoje em dia em algumas igrejas evangélicas.
Anos depois, obras de autores como Thomas Hobbes, René Descartes e Victor Hugo também estavam presentes na lista do Index. A última edição de 1948 tinha 4 mil títulos, mas isso não impediu o clero de emitir posteriormente um alerta sobre o risco de algumas obras. Harry Potter e O Código da Vinci são livros que possuem o admonitum, advertência em latim. 
 
Em pleno 2020, como uma nova versão do Santo index, o desembargador da 6º Câmara Civil, Benedicto Abicair, determinou que o Especial de Natal do Porta dos Fundos fosse retirado na plataforma da Netflix. O pedido foi protocolado pela Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura, num ato claro de censura. O desembargador justificou sua decisão afirmando: “Por todo o exposto, se me aparenta, portanto, mais adequado e benéfico, não só para a comunidade cristã, mas para a sociedade brasileira, majoritariamente cristã, até que se julgue o mérito do Agravo, recorrer-se à cautela, para acalmar ânimos, pelo que concedo a liminar na forma requerida.”
 
Percebe? Ao longo da História, a Igreja selecionou que tipo de informação deveria chegar até você, influenciando sua maneira de ser/estar no mundo e de reagir a ele. Algo de semelhante ocorre no filme Contos Proibidos, originalmente de autoria do Marques de Sade (2001), produzido pelo diretor Philip Kaufman. Nessa versão, o Conde é mantido em um sanatório como forma de ser impedido de escrever contos eróticos e sarcásticos em relação à igreja. A História se repete. A igreja continua pensando o que é válido e benéfico a todos/as sob um viés generalizador: “(...) sociedade brasileira, majoritariamente cristã (...)
 
Durante anos assistimos ao comediante, Chico Anísio, interpretar um Pai de Santo homossexual, mas eu nunca vi ninguém protestando na rua contra sua atuação artística. Claro, candomblecistas, umbandistas e juremeiros/as não são a maioria. Eu até compreendo que o direito de expressão esbarra no respeito a fé alheia, mas porque a única fé respeitada é a cristã? Vivemos numa sociedade moralmente tendenciosa, na qual é permitido hostilizar e fazer piada com as questões ligadas à minoria, mas jamais ofender os cidadãos de bem e sua crença cristã.
 
Se levarmos em consideração a concepção de Deus, enquanto fenômeno do espírito humano e, portanto, não pertencente a nenhuma religião exclusivamente, aceitamos que humoristas tem direito à liberdade de expressão em forma de sátiras, não ferindo com isso, a liberdade de crença. Esta também foi a compreensão do Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, que derrubou a censura ao Especial de Natal do Porta dos Fundos, reforçando o entendimento de que o pedido da Associação Centro Dom Bosco era inconstitucional. 
 
A Bíblia pode até ser um documento sagrado para alguns, mas a Constituição é um documento válido para todos/as e precisa ser respeitada. O cristianismo ensinou às crianças a ter medo das bruxas e não da igreja que as queimaram vivas, só porque estas se opuseram aos avanços do capitalismo. Não faço tais relatos para questionar sua fé, pelo contrário, encare minha escrita como um convite à ciência e como uma forma de despertá-lo para uma análise mais ampla dos acontecimentos contribuindo para fortalecimento de uma atmosfera de respeito para todas a crenças.