Ana Paula Campos

27/01/2020
 
QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO NEGRO?
 
 
Estava eu caminhando por entre os livros de uma livraria em Natal quando vi o título de um exemplar: Quem tem medo do feminismo negro?, da filósofa Djamila Ribeiro. Fiquei intrigada. E existe um feminismo negro? Eu conhecia Simone de Beauvoir e a teoria feminista, mas nunca havia parado para pensar nas questões relacionadas especificamente à minha raça. Eu nem sabia que tinha uma, para início de conversa. Sufocada pelo racismo estrutural, a gente segue achando “normal” a maneira diferenciada como é tratada e acaba naturalizando o racismo. Djamila foi meu divisor de águas. Um abrir de olhos para uma realidade que eu vivia, mas nem me dava conta.
 
Para começar, ao contrário do que muita gente pensa, o feminismo negro não é um recorte da teoria feminista, tampouco uma teoria que se opõe a esta. É, antes, uma maneira de evidenciar as especificidades da mulher negra que não são discutidas à luz de uma teoria mais ampla que nos acolha. Nós, mulheres negras, sofremos duplamente: com a questão do gênero e com a questão da raça. Então, é importante que a gente se questione: “De quais mulheres estamos falando?”, nos alerta Sueli Carneiro, fundadora do Portal Geledés. 
 
Enquanto o feminismo luta, por exemplo, para que as mulheres brancas possam ocupar o mercado de trabalho e não sejam mais vistas como “sexo frágil”, a mulher negra sempre trabalhou, desde o período escravagista, e nunca foi reconhecida como “sexo frágil”, aguentando o açoite e executando o trabalho pesado tal qual um homem, mas, como bem questionou Sojourner Truth: “e eu não sou uma mulher?”.
 
Homens frequentemente passam longe de uma feminista ou se posicionam na defensiva ao ouvir o termo “feminismo negro”, porque imaginam que somos suas rivais. O feminismo negro nada mais é do que uma teoria escrita por mulheres negras repensando toda a estrutura social a partir do nosso lugar de fala, elaborando modelos alternativos de sociedade. Nossas dores, desejos e questionamentos reverberam a partir da nossa própria voz com base em nossas leituras e vivências.
 
O feminismo negro vem pensar a sociedade sob a ótica de raça, classe e gênero, uma vez que todos esses fatores se entrecruzam formando várias formas de exclusão. É impossível se pensar e discutir o indivíduo sem levar em consideração a questão da interseccionalidade, uma vez que os sujeitos que estruturam a sociedade são constituídos por várias identidades, entrecruzadas em opressões de diferentes ordens e que precisam ser combatidas igualmente.
 
Falar em feminismo negro torna-se fundamental e urgente quando pensamos sobre o abismo entre crianças negras e brancas, a desigualdade salarial entre as raças que agrava quando focamos do ponto de vista da mulher negra, a dificuldade de acesso e permanência à/nas universidades, mas, principalmente, quando compreendemos que existe uma política de genocídio do povo negro em curso.
 
Cada discurso contrário à luta antirracista – considerando nossas falas como “vitimismo” e “mimimi” – ressoa como o incômodo dos homens, brancos, cis, etc., por estarem se dando conta de que mulheres negras estão assumindo lugares de destaque e trazendo à tona reflexões antes silenciadas. Seus privilégios estão sendo ameaçados. O fato de considerarem uma feminista negra como antipática e/ou agressiva, nos colocando no lugar do algoz, quando estamos simplesmente reivindicando nossa humanidade, é algo vil, leviano e covarde. 
 
Finalizo defendendo que o livro de Djamila Ribeiro não é destinado apenas para mulheres negras. Todos/as nós, independentemente de gênero, raça e classe, precisamos pensar e discutir o assunto. O racismo é um problema de todos/as, então, cabe a todos/as nós buscarmos estratégias para combatê-lo.
 
DICA DE LIVRO:
RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras, 2018.