Ana Paula Campos

20/01/2020
 
 
MULHERES NEGRAS INSURGENTES INCOMODAM MUITA GENTE
 
 
Eu havia acabado de ministrar uma palestra sobre identidade negra e representatividade, quando fui abordada por uma educadora que disse ter uma dúvida. Na verdade, estava mais para uma afirmação: “Você diz que é negra, mas tem cabelo loiro (luzes) e tatuagens.” Fiquei perplexa. Ainda me surpreendo com a ignorância racista, inclusive depois de uma hora falando sobre o assunto, mas retomei a fala e argumentei calmamente. 
 
Expliquei que, primeiramente, a noção de raça não é algo ligada às características físicas. Ser negra é muito mais que a cor da pele ou a textura/cor do cabelo. Está ligada às questões políticas, sociais e culturais. Além disso, pintar ou marcar o corpo com uma espécie de tatuagem é uma prática muito comum em alguns países africanos. Na Etiópia, Uganda e Sudão, as pessoas deixam cicatrizes na pele, marcando o período de transição de suas vidas. São as chamadas escarificações. E, para finalizar, na condição de feminista negra, argumentei que nós mulheres podemos ser e fazer o que quisermos, entendeu? Mas a lamentável resposta veio imediata: “Não e não concordo!”
 
A senhora em questão, uma mulher branca, assim como tantas outras, não estava incomodada com a cor do meu cabelo ou com minhas tatuagens. Acredito que o que a incomodou de verdade foi o fato de se deparar com uma mulher negra insurgente que detinha o poder de fala e trazia a público verdades decoloniais difíceis de ser digeridas por alguém que prefere ver negros e negras na condição de subalternidade. 
 
Essas pessoas aceitam que ocupemos lugares de destaque como humoristas, jogadores/as de futebol ou “mulatas” do samba com nossas belezas “exóticas”, mas jamais o alto degrau da intelectualidade.
 
Para aquela senhora, ver uma autêntica filha de Oxum, plena em sua beleza, mas também empoderada e dona da sabedoria, contribuindo para o descortinar de uma educação colonial, euro-central, sexista e racista, foi um duro golpe na sua condição de privilégio branco. 
 
Mas o que eu disse a partir da sua negativa, afinal? 
 
- Leia, professora. Ajuda muito!