Andrea Nogueira

04/01/2020
 
Era uma vez...
 
Numa cidade não muito distante da Capital nasceu uma menina especial. Especial para seu pai e para sua mãe, mas especial. A menina cresceu numa família aparentemente normal. Normal no sentido convencional da palavra: tinha um pai e uma mãe. O pai trabalhava e a mãe cuidava dos filhos. Quando jovem, a mocinha cursou faculdade, fez grandes amizades, começou a trabalhar, namorou, fez planos para o seu futuro aparentemente curto. Sonhou com grandes realizações, fez planos profissionais e pessoais. Imaginou que a vida seria como nos livros, filmes, novelas, contos e com alguns tons de histórias contadas pelos seus pais convencionais e amigos convencionais. Imaginou que a ética era a balança de tudo e que suas ações ajudariam a concretizar o ideal de um mundo justo e equilibrado. Pensou que a educação dependia dos professores, que a justiça dependia do judiciário, que os direitos dependiam das leis elaboradas pelos membros do legislativo, que a saúde pública seria possível através da construção de bons hospitais, que quem infringisse a lei seria punido e aqueles que cumprissem todas as regras sociais e legais seriam agraciados com uma boa vida. Aquela jovem moça pensava que inocentes jamais iriam parar numa cadeia e que a mentira tinha perna curta.
 
Chegando à meia idade, começou a estranhar o mundo. Existia alguma diferença que não havia sido abertamente anunciada. Manter-se no mercado de trabalho era mais difícil do que ela imaginara. Ter ideias e poder exprimi-las também não era fácil. A depender da ideia, era melhor deixar na gaveta dos pensamentos para não escandalizar a sociedade convencional. 
 
Certo dia, leu uma notícia sobre uma advogada desautorizada a entrar num Fórum porque a Diretora de lá disse que sua saia não tinha o tamanho adequado. Outro dia, leu sobre uma menina “estranha”, porque sempre gostou de futebol. Mais tarde, leu que a época da Ditadura no Brasil fez bem à sociedade. Noutro dia, leu que o holocausto não aconteceu.
 
Em terra de quem fala o que quer, escreve que quer e pensa o que quer, a democracia brilha. Nessa mesma terra multiplicam-se as controvérsias, as verdades e as versões de um mesmo fato. Nessa terra se vive e morre. É possível chorar e sorrir. A madura mulher dessa história lê e ouve de tudo, mas ainda pode escolher o que deverá multiplicar. Assim, continua a propagar que a educação depende dos bons professores, que a justiça depende do bom judiciário, que os direitos dependem de boas leis elaboradas pelos membros do legislativo, que a saúde pública é possível através da construção de bons hospitais e que o infrator de leis será punido, inocentes serão salvaguardados e as mentiras sempre serão descobertas mais cedo ou mais tarde.
 
A mulher dessa história, em sua avançada idade já experimentou incontáveis sabores da vida e ao final, viveu feliz para sempre.