Wellington Duarte

29/12/2019
Para responder a essa pergunta, não devemos nos valer do senso comum ou das nossas vontades, muitas expostas nas redes sociais mais como um gesto de raiva do que de análise, mesmo as mais simplórias.
 
Existe uma indisfarçável vontade de autoflagelação devido ao fato de que elegemos um elemento nocivo para a presidência da República e culpamos o “povo” por não saber votar, uma frase atribuída a Pelé, no auge da Ditadura, quando havia um arremedo de partidos funcionando, dois na verdade, e cuja frase, na verdade, foi “o povo brasileiro não está preparado para votar”.
 
Ainda hoje em qualquer papo, sempre colocamos a culpa no “povo”, embora esse ente quase místico seja igual ao Diabo, assumindo a responsabilidade por todas as ruindades que vem das urnas, o que não é bem o caso, já que tivemos 21 anos de Ditadura que deformou a sociedade e que, ao deixar ao poder, não foi escorraçada, saiu de fininho e manteve todas as milacrias criadas por ela, inclusive os grandes esquemas de corrupção.
 
Mas será mesmo o “povo” brasileiro tão burro assim? Quer dizer então dos sábios europeus que elegeram o bucéfalo Viktor Orban, na Hungria, um elemento perigoso que cospe um feroz ódio nacionalista e flerta claramente com os fascistas; que dá votos aos partidos de extrema-direita na Grécia, Itália, Polônia, França, Espanha e nas antigas democracias populares, hoje infestadas de nazifascistas? Ora, seria o povo europeu tão burro assim? Será que despejar votos em neofascistas que atacam sinagogas e cemitérios de soldados mortos na Segunda Guerra (no caso dos países Bálticos) ou de dar poder a partidos de natureza nazifascista, como na Ucrânia, ou semifascista, como na Polônia, demonstraria a irremediável burrice do “povo” europeu?
 
Não creio ser essa a resposta mais acertada. O bolsonarismo veio na onda de extrema-direita que já vinha se formando no processo eleitoral de 2014, resultado das “jornadas de junho” de 2013 e que foram alimentadas por uma grande campanha midiática que “produziu” o senso comum de que “tirar o PT do poder” era mais importante do que defender a democracia.
 
Não se culpe o “povo” pela situação que passamos e passaremos, e nem procura culpas pois o movimento da história e o desenvolvimento das forças produtivas nos dão pistas sobre a atual situação. Das grandes crises nasceram o nazismo e o fascismo e dessa crise eles ressurgiram.
 
A roda da história, inexorável, gira nos empurrando para trás. Cabe a nós participarmos de um grande movimento para deter esse retorno ao passado e empurramos a carroça da história para frente.