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O Estouro da Barragem e a Fé na Cruz Santa do Inharé

Alex Gurgel (jornalista)


 

Uma das principais cidades da Região do Traíri, Santa Cruz do Inharé é um município próspero, onde abriga 30 mil habitantes na zona rural e urbana. Aos sábados, a feira-livre, a maior da região, atrai milhares de pessoas das cidades circunvizinhas, transformando a livre negociação das mercadorias no ponto forte do comércio local.  Cortada pela BR 226, a cidade de Santa Cruz está localizada a 120 km de Natal, contando com um clima semi-árido durante a maior parte do ano. Porém, no mês de junho, as festas juninas esquentam o frio aconchegante que é soprado da Serra do Doutor, obrigando as pessoas a usarem casacos durante a noite.

Sob as bênçãos de Santa Rita de Cássia, o povo pacato santa-cruzense conta sua história através de acontecimentos marcantes. As cenas da tragédia do dia 1º de abril de 1981, que desabrigou cinco mil pessoas e deixou o Estado do RN sem luz e água por cinco dias, ainda permanece na memória dos moradores do município. Foram momentos de agonia que marcou as vidas dos cidadãos e fez heroína uma telefonista: Maria de Fátima da Silva, que fez contatos com o prefeito da época, Hildebrando Teixeira, para esvaziar a cidade antes do rompimento da barragem de Campo Redondo, distante 25 km de Santa Cruz, salvando milhares de pessoas.

Apesar de ser o dia 1º de abril, conhecido como o dia nacional da mentira, o alerta da telefonista deu resultado e carros de som anunciaram a ameaça da enchente. Os moradores deixaram para trás suas casas e foram abrigados em prédios públicos ou regiões altas da cidade. Dentro de três horas a enxurrada das águas devastaria a cidade.

Conhecida como a maior tragédia natural do Estado, a enxurrada de Santa Cruz contabilizou seis mortes e 1.044 casas destruídas. A correnteza das águas percorreu ainda cerca de 80 km (equivalente a distância entre Natal e Tangará) e atingiu outros quatro municípios.
Com 14 torres da rede de energia da Chesf derrubados, o Rio Grande do Norte permaneceu uma semana às escuras. Em Natal, o único hospital com gerador na época era o Walfredo Gurgel. Supermercados fechavam mais cedo com medo de assaltos. Sem energia, o bombeamento para abastecimento de água também foi comprometido.

CALAMIDADE
O então governador Lavoisier Maia decretou estado de calamidade pública em toda a região do Trairi e levou fotos da tragédia ao presidente da República, João Figueiredo. O ministro do Interior na época, Mário Andreazza confidenciou ao prefeito de Santa Cruz só ter visto cena igual em guerra.

No alto do Monte Carmelo, a maior
estátua religiosa da América Latina


Em maio, a cidade de Santa Cruz celebra sua padroeira, Santa Rita de Cássia. Este ano, os fiéis e os devotos da santa tiveram um motivo a mais para festejar. No alto do Monte Carmelo, conhecido como Monte do Cruzeiro, está sendo construída uma estátua da santa padroeira, com a pretensão de se tornar a maior estátua religiosa da América Latina. A idéia surgiu há dois anos durante uma conversa entre o padre Aerton Sales e o prefeito Tomba. De acordo com o padre, o lugar já é devocional, pois no topo do Monte Carmelo existe um cruzeiro e, no caminho, há uma estrutura de via-sacra. "Já era desejo do poder público construir algo no monte, que embelezasse a cidade. Tendo em vista, a forte de devoção do povo à Santa Rita, resolvemos construir essa imagem", explica o pároco.

No momento, a estátua está sendo construída dentro de um imenso galpão, no bairro Paraíso, em Santa Cruz, sob a coordenação do arquiteto, escultor e professor da Universidade Federal da Paraíba, Alexandre Azedo. Foi ele quem projetou a imagem do Frei Damião, em Guarabira (PB), com 22 metros. O pai dele, Armando Lacerda, foi o escultor da imagem do Padre Cícero, em Juazeiro (CE), que mede 27 metros de altura, inaugurada em 1969.

Quando pronta, a imagem de Santa Rita terá 42 metros de altura, acrescidos 3 metros do pedestal e 8 metros do resplendor, somando 53 metros, o que equivale a um edifício de 19 andares. Será, portanto, a maior estátua da América Latina. A do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, mede 38 metros de altura.

Em Santa Cruz, a edificação da estátua fará parte do "Complexo Turístico-religioso Alto de Santa Rita". Além da imagem, farão parte do Complexo uma praça, estacionamento, restaurante, mirante, banheiros, duas capelas, um espaço para guardar ex-votos, uma sala onde ficará o memorial sobre a vida da santa e da própria construção do Complexo.
Conforme o padre, no caminho de acesso ao Alto de Santa Rita também serão colocadas as estações da Via-sacra. A construção do Complexo custará mais de quatro milhões de reais. 

 

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