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Pinto Júnior
Defensor do meio ambiente em Ponta Negra, o jornalista Yuno Silva conversou com o jornalista Pinto Júnior sobre os problemas da orla, principalmente o que envolve a polêmica dos espigões.
Pinto Júnior: Como surgiu o movimento SOS Ponta Negra? E quais as principais atividades realizadas desde 2006?
Yuno Silva: O movimento SOS Ponta Negra surgiu espontaneamente em 2006, logo na época em que surgiu a divulgação publicitária da venda de apartamentos próximos ao Morro do Careca. Por entender que isso é um absurdo, até por questões econômicas, já que a cidade vive do turismo, o movimento surgiu para evitar que os prédios fossem construídos ao lado do Morro do Careca. A paisagem é o cartão-postal da cidade, faz parte da identidade cultural do natalense e a gente estaria manchando exatamente a riqueza, a paisagem mais vendida internacionalmente. Quando a pessoa pensa em Natal, lembra logo de Ponta Negra e do Morro do Careca. Em 2006 criamos esse movimento, o ex-prefeito Carlos Eduardo foi muito sensível a essa causa, embargou imediatamente as licenças concedidas pela Semurb e em 2007 essas licenças foram revogadas e, claro, com todo o direito, os construtores entraram na justiça para retomar essas obras.
PJ: Outra questão que a SOS Ponta Negra discute é sobre o emissário submarino. Como é que está este debate na comunidade de Ponta Negra
YS: Em 2007 conseguimos adiar um pouco a construção do emissário submarino. O projeto inicial previa apenas a construção de um emissário com um tratamento primário. O processo se daria da seguinte forma: os resíduos sólidos seriam filtrados e toda a água suja iria para o mar, in natura. A gente conseguiu frear esse processo, o emissário sofreu reajustes e, hoje em dia, já se fala de um tratamento secundário. Mas continuamos a exigir um estudo mais completo de impacto ambiental, a questão pesqueira não foi considerada, tem a questão do próprio terremoto que ocorreu na cidade e não há um plano de segurança. Querem apenas construir para não perder a verba. E a nossa proposta é: que se perca a verba, mas que se faça uma coisa bem feita. Se quer garantir os recursos que vêm do governo federal, algo em torno de R$ 80 milhões, que façam um projeto bem feito e que possa permitir no futuro a reutilização da água.
PJ: Essa questão da reutilização da água dos esgotos, no sentido de melhorá-la e utilizá-la na agricultura dos municípios vizinhos, isso já foi debatido ou é apenas uma tese não levada em consideração?
YS: É uma tese, mas foi levada em consideração. O problema é o custo desse processo, a construção das adutoras, digamos assim. A questão não é reutilizar ou não a água, a questão é como levar essa água até os locais onde teria a demanda. A demanda vem da agricultura em Pium, em Nísia Floresta. A gente pode utilizar essa água industrialmente em Macaíba e no centro industrial avançado. Essa água é de boa qualidade, principalmente para a agricultura. Já foi comprovado que as substâncias orgânicas nessa água potencializam o crescimento de todos os vegetais. Além de não ser nociva a nossa saúde.
PJ: Qual a preocupação do SOS Ponta Negra com a segurança pública no bairro?
YS: O Movimento SOS Ponta Negra acabou se desdobrando em um outro núcleo, chamado “Filhos de Ponta” que tem o projeto “Território de Paz”, elaborado juntamente com uma equipe da UFRN, com vários departamentos, e com o Gabinete de Gestão Integrada (GGI). O GGI seria a Secretaria de Segurança Pública com diversos outros órgãos (Receita Federal, Forças Armadas, Polícia Federal e outros) e eles investem em projetos para a segurança pública.
PJ: Mas o “Território de Paz” é um projeto que já está em andamento ou ainda é só uma ideia?
YS: É uma ideia avançada. Na teoria já temos algumas atividades pontuais, ainda não temos o recurso, mas é uma ideia madura. Precisamos aparar algumas arestas para, justamente, integrar melhor a atuação da UFRN e Secretaria de Segurança Pública com o GGI. Porque a comunidade está organizada e tem todo o interesse em colocar o projeto para frente. É um projeto que está bem avançado e a gente só precisa de um pouco mais de vontade do poder público e mais comprometimento da UFRN, uma dedicação maior de tempo.
PJ: Uma das questões que manchou muito a imagem de Ponta Negra foi a prostituição. Depois que colocaram câmeras parece que diminuiu, mas não acabou, não é isso?
YS: Diminuiu, não acabou e está um pouco mais escondida. Mudou de local. Continua o problema da prostituição, da exploração sexual. Ela saiu da beira da praia e subiu a ladeira para o Alto de Ponta Negra. Naquela rua conhecida como a do Salsa, do Taverna Pub, tem muitos empresários interessados em desmistificar essa imagem negativa que ficou naquela área. Então já tem muito empresário investindo para reverter essa situação. Agora está bem mais agradável para passear, o natalense pode voltar a freqüentar que está, digamos, mais aprazível e convidativo.
PJ: Cada vez mais meninas e meninos se prostituem por preços absurdos para poder comprar crack, causando uma selvageria num segmento que já tem um lado bastante delicado.
YS: Infelizmente o crack quando chegou ao Brasil se transformou em uma droga de jovens. A droga já existia, não é novidade, mas na europa e EUA quem utiliza o crack são idosos, moradores de rua, para resistir ao frio e diminuir a fome. Vicia em pouquíssimo tempo, degrada, acaba com famílias e a gente vê, principalmente na Vila de Ponta Negra, adolescentes e crianças perdendo a vida por causa disso. Garotas se prostituindo por uma ou duas pedras de crack. Inclusive há uma relação complicada entre traficantes, prostituição e estrangeiros. Há uma cadeia de violência envolvida nisso. A prostituição está muito próxima do tráfico de drogas e eles acabam seduzindo o mesmo cliente. O próprio estrangeiro procura a droga e por tabela encontra a prostituta ou vice e versa. Há uma questão social aí, é preciso trabalhar com a autoestima das pessoas. A sociedade civil organizada e o poder público precisam pensar a questão do crack como uma questão de saúde e que a falta de oportunidade de emprego, a falta de educação, de um lazer comunitário saudável faz com que as pessoas acabem fugindo para esse lado.
PJ: E em Ponta Negra, os equipamentos de lazer são raros.
YS: Na praia nós temos o problema da poluição, na Vila de Ponta Negra os acessos à praia são sofríveis, só existem escadarias em cima de tubulações de esgoto. Na comunidade não existe uma praça convidativa, uma convivência comunitária e social que também é um fator de segurança. Quanto mais as pessoas convivem, elas acabam gerando uma sensação de segurança. Estamos lutando também pelo Campo do Botafogo que é a única área pública de lazer do bairro que está sendo alvo da especulação imobiliária. O campo fica por trás da Igreja católica e próximo ao Morro do Careca. Tem uma construtora de olho no campo para construir mais quatro torres, exatamente ao lado do Morro. É um espaço dentro da Vila que já existe desde 1951 e é utilizado como um campo público, acontecem campeonatos, tem escolinha de futebol para crianças e a gente está brigando na justiça para garantir o direito de continuarmos utilizando o campo que é um direito nosso há mais de 50 anos. Tudo isso acaba influenciando na segurança e no próprio índice de violência. A qualificação profissional, opção de lazer, educação, cultura são importantes para poder transformar socialmente a nossa comunidade.
PJ: Vocês têm um blog, não é mesmo?
YS: As pessoas interessadas em se aprofundar mais nesse assunto podem visitar o http://www.sospontanegra.blogspot.com. A gente precisa que as pessoas se envolvam, participem e se interessem, assumam um papel na sociedade e façam parte da construção desse futuro que é bom para todo mundo. Não só para Ponta Negra, mas para a cidade como um todo.
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