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21/10/2009 10h08min

Distorções creditícias

De muito bom nível o seminário "Motores do Desenvolvimento" promovido pela Fiern/Fecomércio na segunda-feira passada. Nele, assuntos pertinentes e importantes foram abordados, muitos dos quais deixando de lado a análise da já tão batida crise que abalou o mundo para se ater ao que vem a partir de agora, quando se proclama aos quatro ventos que o Brasil está apto a crescer, a esquentar os motores em busca de uma taxa mais robusta de crescimento. Assim falo (e escrevo) porque estou cansado de freqüentar eventos semelhantes nos quais o simples reclamar e a choradeira inócua e sem fim tiram o espaço do bom debate, da boa discussão, da análise que precede o contato com as grandes ideias, as boas soluções. E a essência do seminário da Fiern/Fecomércio abraçou este lado da questão, tendo o condão de trazer a lume exposições objetivas, positivas, propositivas e enriquecedoras.

Deixando de lado algumas palestras que exageraram no ufanismo com que celebram o desempenho do governo federal (houve realmente tietagem nesse sentido), os demais expositores nos brindaram com informações interessantes e dados esclarecedores. De tudo o que ouvi, destaco a colocação feita por Fernando Blanco, presidente de uma seguradora de crédito interno, no tocante à péssima negociação feita pelo empresariado brasileiro, principalmente pelo nordestino (o potiguar nem se fala!), na hora de tomar crédito bancário. Os números que ele apresentou são de cortar coração, pois redundam na constatação de que o atraso, a crônica ineficiência secular, a cegueira empresarial e a consequente inexistência de condições de competitividade de nossas empresas, em confronto com as do sul/sudeste e de outros países, são fruto, fundamentalmente, da nossa eterna dificuldade de acesso ao crédito.

Segundo Fernando Blanco, a média nacional de endividamento das empresas brasileiras está na casa dos R$ 117 mil, a média nordestina chega a R$ 77 mil, enquanto a média de endividamento das empresas potiguares está beirando os R$ 55 mil. Dá para se perceber, por mais leigo que se seja no assunto, que ainda falta às empresas norteriograndenses um caminho muito longo a percorrer para chegarem à média de endividamento das empresas brasileiras. Pode ser até que alguém esteja batendo palma pelo fato de que, se nossas empresas estão com um nível de endividamento baixo, é porque estão sem dever aos bancos. Doce engano. O que se observa, na realidade, é que uma das grandes dificuldades para o empresário potiguar crescer, expandir seus negócios, está ligada diretamente ao complicado acesso ao crédito bancário. Pois se sabe que crédito existe; o problema é colocar a mão nele.

É interessante se notar também que, apesar da gravidade da colocação feita por Fernando Blanco - tendo em vista o que ela representa em termos de entrave ao desenvolvimento local - nenhuma autoridade, nenhuma instituição, nenhum político, nem mesmo a Imprensa repercutiu o assunto. É como se sobre ele pairasse uma nuvem de silêncio, e uma vestimenta de acomodação e inércia lhe encobrisse por inteiro. Onde estão nossas lideranças empresariais, nossas lideranças políticas? Afinal, a diferença entre a média de endividamento de nossas empresas e a média brasileira nos leva facilmente à conclusão de que bilhões e bilhões de reais estão impedidos de se acomodar, via crédito, em território potiguar - razão pela qual é tão difícil carregar o fardo do nosso desenvolvimento. Será que, para alterar essa realidade, teremos que clamar aos céus uma vez que, do homem, só enxergamos omissão e indiferença?

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