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O sertão encantado das caraubeiras
“Caraúbas, Passargada dos meus oito anos,Terra dos meus primeiros alumbramentos,Tão pequena que eras, mas tão grande,Na minha geografia de menino”.
(Deífilo Gurgel)
Textos: Alex Gurgel (jornalista)
Fotos: AG Sued
Como num canto laudatório à sua terra, os versos do bardo representam a mais perfeita tradução da beleza parnasiana desse sertão encantado. Pela sua beleza rusticamente sertaneja, Caraúbas causa alumbramentos instantâneos naqueles que se aventuram numa visita descabida a região do Médio Oeste potiguar. A beleza simples das ruas bem cuidadas, aliada ao acolhimento do povo, cria uma atmosfera familiar como se o poeta estivesse em cada recanto de sua Passargada.
Caraúbas é um dos berços da família Gurgel, radicada na região desde os tempos de Dona Quitéria Ferreira de São Luís, filha do Coronel Vicente Gurgel, vindos de Aracati, no Ceará, e de tradicional família cearense.
Mas, a cidade também é povoada pelos reconhecíveis “Cabocos” com suas feições indígenas, moradores dos sítios Chachoeira, Apanha-Peixe e Mirandas. Caboclo é a miscigenação de índios com brancos. Porém, em Caraúbas os cabocos são conhecidos como descendestes de Leandro Bezerra, fundador do município.
Segundo o historiador Raimundo Soares de Brito, em seu livro “Caraúbas Centenária” (Fundação Vingt-Un Rosado), Leandro Bezerra era sobrinho do Tenente-General Francisco de Souza Falcão, da Província do Cabo, em Pernambuco.
Essas famílias edificaram terras na fazenda “Cachoeira”, que em pouco tempo tornou-se uma comunidade de pessoas vinda da cidade do Cabo. Portanto, “cabocos” é uma corruptela para identificar os descendentes daqueles que vieram do Cabo.
A origem do nome “Caraúbas” provém de uma densa mata de caraubeiras, árvore de casca amarga e folhas amarelas, existente ao longo de um afluente do rio Apodi. Em 1924, Manoel Dantas escreveu em seu livro “Homens de Outrora”: “Á margem do rio Apodi, eram tantas as caraúbas que davam sombra e ostentavam um cerne gigantesco que os viajantes, nas suas jornadas, marcavam sempre um ponto de descanso na várzea das caraúbas, nome que passou a município e a cidade que hoje se ergue, com seus casarios regulares e bem tratados, no meio de extensos tabuleiros.”
Conforme Manuel Dantas, quando os primeiros cabocos chegaram à região, os índios Paiacus chamavam o lugar de “Carahu-mba” (fruta da casaca negra). Não demorou muito para que as terras fossem chamadas de “Várzea das Caraúbas” e, mais tarde, apenas como Caraúbas, que passou a ser distrito de paz, arrabalde e município. Hoje, sabe-se que Caraúbas (jacarandá copaia) é uma árvore majestosa da família das bignoniáceas. Ainda hoje, as caraubeiras são vistas pela cidade, dando sombra para uma conversa demorada aos devotos de São Sebastião.
Caraúbas tem um potencial turístico muito promissor e pouco explorado, pois é roteiro alternativo para aqueles aventureiros que querem descobrir as belezas dos sertões, fazendo eco-turismo. Na região, há uma intensa exploração do “turismo sertanejo”, como acontece em Martins e na Chapada do Apodi, com dezenas de agências levando, na sua maioria norte-riograndenses que querem descobrir o próprio Estado,
Construído em 1929, o prédio da Estação Ferroviária transformou-se em uma Casa de Cultura com o apoio do Governo do Estado para ser utilizada no desenvolvimento da cultura local, onde os artistas podem mostrar a essência da arte popular caraubense. O Mercado Central, edificado em 1917, bem preservado e com uma intensa vida comercial, nos remete a um passado glorioso quando Caraúbas começou a ser vilarejo. Aos sábados, a tradicional feira em torno do Mercado atrai gente de todos os lados, movimentando a economia do município.
Era na calçada do mercado que nasciam as idéias políticas entre os caraubenses mais ilustres, enquanto degustavam uma talagada de pinga na mercearia de Tiãozinho, que até hoje mantém seu comércio aberto. As casas do “Quadro”, conhecido espaço onde tradicionais famílias caraubenses moram, em frente à igreja de São Sebastião, as casas bem cuidadas do “Beco Velho” e os casarios da Praça Reinaldo Fernandes Pimenta, completam o conjunto arquitetônico secular da cidade.
No Olho D’água do Milho, a 6 km do centro urbano, há um hotel em péssimas condições, em total abandono, onde antes já teve alguns serviços de hospedagens. A fonte termal, que lá existe e jorra permanentemente de um lençol localizado a 200 metros de profundidade, é límpida, incolor e não tem cheiro. Conforme uma placa de aviso no local, o banho nestas águas pode curar os males do corpo e da alma.
Próximo ao Olho D’água do Milho, no meio da caatinga, há um sítio arqueológico com inscrições rupestres. Provavelmente, as escrituras foram deixadas pelos primeiros Paiacus, nação indígena que habitou esse berço de sertão, os quais deixaram suas impressões gravadas nas pedras de um serrote. Com 30 minutos de caminhada pelo sertão adentro, um morador do lugar pode levar o visitante até um local conhecido por “Pedras dos Índios”, onde podem ser apreciadas centenas de inscrições nas pedras.
A enorme casa, vista da beira da estrada entre os municípios de Apodi e Caraúbas, sobressai em meio à paisagem seca da caatinga no Médio Oeste. A casa grande da propriedade, encravada em um outeiro, foi construída em 1868. Até hoje, não se tem notícias sobre o processo de reconhecimento, através de processo de tombamento em nível estadual, para averiguar a importância da construção.
A fazenda “Sabe Muito” é o coração da cidade de Caraúbas, a qual foi erguida no final do século XVII, quando vieram para o Brasil alguns portugueses, oriundos da Vila de Faral, província do Douro. Segundo Epitácio Fernandes Pimenta, um índio Payacu, amigo do português Antônio Coutinho, havia encontrado um olho d’água nas imediações da fazenda.
“Antônio Coutinho perguntou se o índio sabia mesmo onde se achava água, o mesmo respondeu: ‘Eu sabe muito’. Coutinho, como todo bom português, conhecia um pouco de sua língua, achou interessante a maneira do Paiacu falar e daquele dia em diante deu o nome dessas terras de Fazenda Sabe Muito”, escreveu Epitácio Pimenta no livro Caraúbas Centenária,
A casa é rústica, mas impressiona pela grandeza que foi construída. É a maior casa do município e parece uma fortaleza, com suas possantes paredes de quatro enormes tijolos que sustentam uma cumeeira com altura de 50 palmos de altura, além de 27 portas e 41 janelas abrigando 20 cômodos. Atualmente, a casa grande da Fazenda Sabe Muito está abandonada, servindo de refúgio para morcegos, ratos e outros animais silvestres.

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