Uma interpretação para São Gregório: A Arqueologia poética de Paulo Rodrigues

08/01/2020

Por: Evilásio Júnior
 
Paulo Rodrigues vem fazendo escavações profundas em sua poética. O seu novo livro é fruto do trabalho arqueológico que ele vem aplicando em sua escrita. O poeta não busca sua matéria-prima nos sítios arqueológicos convencionais, ele escava as paredes da memória, buscando os utensílios para fazer a ponte passado-presente, fazendo o seu leitor entrar nos labirintos da memória: “eu sou o círculo/ no lado avesso/ do abismo.” Círculo aqui dá ideia de retorno, volta.
 
Em uma interpretação para São Gregório, poema que dá nome ao livro, os primeiros versos mostram como eu lírico busca nas lembranças terreno para o seu fazer poético: “arrasto restos de memórias/ num saco de gatos [...]’’. O poeta carrega essas memórias dentro de si, contudo, precisa escavar o terreno de suas lembranças, trazendo à superfície o seu achando arqueológico-poético.
 
Paulo consegue abordar o cotidiano, a vida simples do homem, sem deixar que o seu verso caia no banal. Ele consegue fazer muito bem a transição entre um olhar simples, das coisas que todos os homens vivem nas ruas, à reflexão sobre a existência, sobre o que somos e o que fomos, pegando a mão do homem adulto e levando para revistar a sua criança perdida: “há muito tempo/ eu não ousava ser criança. ” O poeta perfura o terreno do ontem e reconstrói o hoje.
 
Somente a literatura tem o poder ligar mundos, revisitar épocas, criar e recriar o que somos e o que fomos. Uma interpretação para São Gregório faz o leitor percorrer a estrada discursiva criada pelo eu lírico, catando os artefatos deixados em seus versos. As memórias do poeta também se tornam nossas. O livro todo é um convite para as descobertas.
 
Paulo construiu esta obra como quem faz uma busca em um sítio arqueológico, escavando de forma precisa o terreno da linguagem, tirando os excessos, entregando um achado-poético importante para o atual cenário da literatura. É um livro que já nasce grande, sendo um dos vencedores do Prêmio da União Brasileira de Escritores de 2019, de livros inéditos.
 
Para finalizar a minha incursão nesta belíssima obra, digo: a Penalux conseguiu fazer um excelente trabalho gráfico, a arte de Joel DuMara dispensa comentários, os versos de Paulo Rodrigues nos pegam pelas mãos e nos fazem escavar o terreno da memória.