Resenha sobre a comédia teatral ´O velório da marquesa Di Fátimo`

03/11/2019

Por: Ana Cláudia Trigueiro
Foto: Divulgação
 
Rir é o melhor remédio!
 
Ninguém que assista ao espetáculo teatral “O velório da marquesa Di Fátimo” vai discordar da afirmação. A peça é recheada com o tipo de humor estapafúrdio que nos leva à gargalhada por explorar situações bizarras da vida. Nada melhor do que uma programação como essa para atenuar o estresse ou quebrar a monotonia do dia a dia. 
 
Quatro travestis passam a noite velando o corpo de uma quinta, a marquesa Di Fátimo, que morreu em circunstâncias trágicas. Cai uma tempestade nessa noite perturbadora, o que dificulta a chegada dos demais. Então são as quatro (nem tão amigas) as responsáveis por tornar o rito de passagem, um evento para lá de inusitado. Durante sessenta minutos, a plateia testemunha as peripécias corporais e verborrágicas de Brenda Bubu, Hannah de Belém, Corrinha e Lorrayne, que choram juntas a morte da colega de calçadas e infortúnios. E o que, nessas sombrias circunstâncias, trará risadas ao expectador? As tiradas burlescas de três prostitutas e uma cabeleireira e as histórias que essas divertidas amigas têm para contar.
 
É no salão de beleza de Corrinha que acontece o velório. Em um sofá instalado no canto esquerdo do palco, iluminado por uma tênue luz amarela onde se destaca a tabela de preços pintada com tinta spray, o corpo da marquesa jaz coberto por um lençol. O caixão estranhamente ainda não chegou, o que torna a cena espantosa porque, de vez em quando, um dos personagens levanta parcialmente o tecido para observar certas partes da defunta. 
 
Hannah (Leonardo Prata) e Brenda (Ijailson Moreira) são as primeiras a chegar, trazidas pelo taxista Juinão (Stefano Alves). Elas já surgem extravagantes, chorando alto e fazendo insinuações para um Junião impaciente que, insensível ao momento fúnebre, deseja apenas receber pela corrida para escafeder-se dali.
 
Desde o início fica claro que esta comédia também tratará de infortúnios, porque todas as convidadas, em algum momento, contam suas desventuras. E elas não são nada engraçadas. A mistura de humor e drama só dá certo aqui por causa da habilidade do autor, que consegue extrair toda a força desses dois extremos, sem que um desmereça o outro. Hannah e Brenda nos fazem gargalhar, mas também promovem empatia e desejo de reparação, o que é essencial em uma sociedade que segue insensível às situações de violência a que são submetidos as LGBTs.
 
A infância de Brenda Bubu é marcada pela religiosidade da mãe. Esta peregrinou até mesmo por terreiros de candomblé para tentar expurgar, sem sucesso, o jeito feminino do filho único. Brenda também remói a impunidade dos assassinos do pai e é a primeira a fazer o relato de sua vida pregressa.
 
A boneca carioca é para mim a figura mais impressionante. Em parte, pelo figurino escolhido para o ator, que desfila com saltos plataformas enormes, enquanto uma micro-saia plissada expõe pernas calçadas em meias do tipo três quartos. A voz potente e muito bem articulada de Ijailson que carrega na linguagem de rua e brinda o expectador com pérolas como “Tô passada no ferro a vapor!” são trunfos da atual montagem, que já foi encenada há alguns anos com outro elenco.
 
Hannah é talvez a personagem mais densa do enredo. Ela alterna estados de vulnerabilidade, volúpia e agressividade, conforme é provocada, o que magnetiza o espectador. Sua história de vida, marcada por abuso e exploração sexual na infância também comove. 
 
Corrinha, interpretada pelo ator Ney Cesar é a mais discreta. Suas falas, gestos e atitudes são econômicas. Curiosamente foi a personagem de que mais gostei. A começar pelo nome — que é a nossa cara — Corrinha faz o tipo engraçado sem qualquer esforço. Uma simples careta, um sorriso, ou os gritos curtos e debochados que emite duas vezes durante a peça, bastam para que o expectador se dobre de rir.
 
Lorrayne, interpretada por Luana Vencerlau, que eu já tive a oportunidade de assistir no ótimo monólogo “Ventre de ostra”, faz uma entrada triunfal ao som de uma música que mistura rock e ópera e prende a atenção da plateia com os ditos afrancesados e metidos a besta de uma traveca que parece ter esquecido as origens.
 
Juinão, personagem secundário interpretado por Stefano Alves, é engraçado porque é sério e rígido e faz um contraponto à malemolência das demais. Entretanto, acredito que o ator pode extrair mais do personagem a fim de aproveitar todo o potencial cômico que as falas e deixas disponibilizam.
 
A peça é a adaptação de um conto do livro “Cangaço e o carcará sanguinolento”, do escritor, poeta e dramaturgo potiguar, Júnior Dalberto. O autor também escreveu o romance “Pipa voada sobre brancas dunas”, obra que caminha para se tornar um clássico da nossa literatura e de Borderline, encenado pelo Brasil afora com ótima recepção por parte do público.
 
Dalberto uma vez mais demonstra sua competência ao escrever e dirigir uma peça que cumpre com todos os objetivos a que se propõe: é engraçada e despudorada como deve ser. Expõe, sem qualquer subterfúgio, a crueza da prostituição e as tragédias por trás dela. Tem o mérito de despertar na plateia o melhor: consegue que o expectador separe do que se pode rir e o que se deve levar a sério. 
 
O espetáculo também mostra toda a força e o fascínio que essas “bonecas” exercem sobre nós, com seus figurinos apoteóticos, gestos dramáticos e vocabulário próprio. Como bem nos ensinam Corrinha, Brenda Bubu, Hannah de Belém e Lorrayne: “monas de equé” que se prezam nunca devem perder a oportunidade de fazer uma live!
 
A próxima temporada desta hilariante cerimônia fúnebre acontece no primeiro trimestre de 2020 e você não pode perder!