Resenha do livro ´A casa improvisada`, de Milton Rezende

15/10/2019

Por: Krishnamurti Góes dos Anjos
 
O gênero literário Miscelânea de origem latina (miscellanea, “coisas misturadas”) designa uma coleção de textos heterogêneos, e/ou textos dispersos que se organizam num mesmo volume, e têm entre si em comum, o fato de suscitarem o interesse do compilador e do público, mesclando opinião, instrução, e entretenimento. Na miscelânea, guardam-se geralmente as obras ou títulos que não foi possível organizar em antologias, em monografias ou em obras coletivas com índice organizado por seções temáticas específicas. Alguns autores reservam para a miscelânea textos que não se enquadraram numa determinada categoria dentro do gênero literário que praticaram, ou resgatam outros não publicados, ou ainda estruturam sua ordenação dentro de um perspectiva de retrospectiva de seu fazer literário como uma espécie de registro de suas atividades durante a carreira literária.
 
“A casa improvisada” do escritor Milton Rezende, livro a ser lançado brevemente pela Editora Penalux, acrescenta mais uma faceta interessantíssima à definição do parágrafo acima, porque o “improviso”, do título em verdade guarda algumas relações mais aprofundadas que dão à obra um caráter de obra premeditada em sua abrangência. Expliquemos. O leitor que se der ao prazer (a palavra é exatamente esta, não há outra), de levar a efeito uma leitura detida e reveladora, será capaz de avaliar as partes no todo, da mesma forma que o todo se mostra nas partes. Como tantas vezes na literatura moderna, uma visão sintética do mundo pode estar posta em pequenos episódios aparentemente insignificantes da vida cotidiana, assim como, a análise cerrada de um fragmento pode levar a descobertas de alcance geral. Entre prefácios de livros anteriores do autor, resenhas escritas por ele mesmo para livros de outros escritores, entrevista que concedeu, fragmentos de contos inacabados, poemas e reflexões sobre o fazer literário, surge aos olhos do leitor um mosaico, que compõe um quadro de fundo, e cuja diversidade revela um movimento e suas cristalizações. Encontramos um autor com uma endiabrada curiosidade intelectual, fiel a certos autores, e de universo crítico coeso, ainda que sempre disposto a contemplar o fragmentário. Em última análise uma sedimentação formal de sua experiência de vida marcada (como é a de todo ser humano), pelas contingências das coisas que se desgarram, de outras que não dão certo. Indícios de uma revelação mais ampla em seu conjunto.
 
O autor trilha a vereda literária há 30 anos. Publicou mais de 10 livros, foi editor de vários jornais alternativos, e conta inclusive em sua fortuna crítica com a tese de Mestrado de Maria José Rezende Campos sob o título “Tempo de poesia: Intertextualidade, heteronímia e Inventário poético em Milton Rezende”. Tanto o título da tese quanto do livro que ora se publica, trazem a palavra “heteronímia”, que como sabemos é o estudo dos heterônimos, isto é, estudo de autores fictícios (ou pseudo-autores) que possuem personalidade. O poeta português Fernando Pessoa é o maior exemplo da utilização deste recurso. Milton Rezende reproduz inclusive na contracapa da obra um fragmento de Pessoa. Trecho: “Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterônimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurastênico. Tendo para essa segunda hipótese, porque há em mim fenômenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterônimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenômenos – felizmente para mim e para os outros – mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contato com outros; fazem explosão para dentro e vivo – os eu a sós comigo.” Já em Milton Rezende, conforme nos alerta Maria Campos, os heterônimos “ dialogam com o próprio e entre si mesmos, o que, sem dúvida, é uma particularidade bastante interessante. Este aspecto está, aliás, enfocado em dois textos muito bem trabalhados que são: “Gênese de um nome e de um livro” (p.85), e também na resposta nº 15 de uma entrevista que o autor concedeu. (p.44). Há inclusive textos assinados por esses heterônimos de Rezende. Muito, muito interessantes.
 
Há de se registrar a série de desdobramentos nos textos de temas que lhe são caros como a solidão, o amor e a morte, e vale a pena ainda a reprodução do poema “Explicação de um silêncio”, originalmente publicado no livro “Areia (à fragmentação da pedra, pág;10).
 
“Fala em meu cérebro / o projeto de uma fala / que arquiteto em segredo / de não saber falar.
 
Levei muitos anos / para decifrar / meu código interior, / mas como não fiz anotações, / hoje não sei reproduzi-lo / em caracteres humanos.
 
Então falo comigo em silêncio / como se eu abarcasse em mim / toda uma plenária em murmúrio. / E aquilo que escrevo / é o resultado / desse diálogo numa sala vazia.”
 
Um dos heterônimos, de Milton Rezende, Alexandre Barret, em “Apresentação de um andarilho dentro de casa”, afirma: “Uma parte de mim diz que já está de bom tamanho e que é hora de parar, mas outra parte reluta dizendo que o depoimento humano vale por si, como testemunha indubitável da singularidade existente em cada um.” Com efeito. Já em “Poesia andarilha”, lemos a exortação para a atitude que o autor tem, (e todo escritor, sobretudo os brasileiros que vivem em uma ambiência muito pouco acolhedora para a literatura, como é a nossa), deveriam ter: “O negócio é seguir caminhando, andarilho sem causa, à beira do caminho, no meio dos atalhos de pedra e de sonhos.” Sigamos.
 
Livro: “A casa improvisada” Miscelânea em prosa de Milton Rezende. Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2019, 126p. ISBN 978-85-5833-570-6