Santo Antônio: Cidade que inspira

03/12/2018

Por: Helena Monteiro
Nasci as quatro horas da manhã, pelas mãos de uma parteira, numa casa de taipa no Sítio Jacumirim, município de Santo Antônio, na região agreste potiguar, no dia 29 de junho de 1968. Vivi saudosos sete anos por entre a natureza, as lagoas, os forjos de pegar préa de um dos meus irmãos e os bois de barro - e a fazenda imaginária, de outro. Éramos oito irmãos, eu era a sexta filha da família, vivia a cavalgar num cavalo de pau de vassoura no terreiro de casa, envolta das cercas corria atrás de borboletas. Apesar de toda essa felicidade, tínhamos um dia da semana que nos tornava mais felizes ainda, era o sábado. Pois como acontece até hoje, era o dia da feira na cidade de Santo Antônio, meu pai sempre ia com minha mãe e ficávamos aos cuidados da minha irmã mais velha – Célia. Hoje sei que o que tínhamos, na época, era ingênua ansiedade, pois desejávamos que a manhã logo passasse e a tarde chegasse trazendo nossos pais de volta. Quando eles apontavam na porteira, fazíamos carreira e, meu pai sorria, bem sabia ele que estávamos à espreita dos cachimbos de açúcar que ele nos trazia.   
Além das doces lembranças, também me ocorre as lendas que minha mãe nos repassava com o intuito de nos proteger. Porém, creio que ela acreditava em tudo que dizia, pois nos falava com tamanha propriedade que era como se tivesse vivido e visto tudo aquilo. Desde o Papa – Figo, que era um homem mau que pegava tanto meninos e meninas e tirava o fígado deles para se alimentar, por isso tinha que ser obediente e ficar perto dos pais. Então quando o sol caia corríamos todos para dentro de casa e armávamos as redes na sala, púnhamos a nos balançar. Minha mãe vinham nos contar mais ‘estórias’ sobre a Comadre Fulozinha, essas eram de arrepiar. Ela dizia que a Comadre Fulozinha só saia à noite e caso encontrasse alguém vagando dentro do matagal ela não perdoava, nem tampouco adiantava correr porque ela era muito veloz - feito o vento; tinha cabelos pretos e longos que açoitavam as pessoas e estas nem chegava a vê-la porque depois ela se encantava. Que quando ela vagava nas noites escuras era por que estava com vontade de fumar e, que seu desejo era tanto que ela ia até os quintais das pessoas atrás de fumo. Minha mãe confessou que tinha dias de já ter deixado fumo em cima do telhado da cozinha e no outro dia, ao amanhecer, não encontrar nada. Cresci ouvindo tantas ‘estórias de trancoso’ que estas marcaram minha vida, aguçando em mim, o uso da imaginação.
 
Em 1975, nos mudamos para a cidade, mas todas as histórias vividas e ‘estórias’ contadas ficaram registradas em minha memória. Tanto que logo que fui para a escola, fazer a primeira série, em 1976, na Escola Estadual Professor Alexandre Celso Garcia, no turno da manhã adentrei no universo da leitura e cada livro que lia despertava à vontade de ler mais. Lembro-me como hoje, que, na época, não tinha luz elétrica na minha casa, vivíamos ainda a base da luz das lamparinas a querosene. E, eu, passava as tardes, na Biblioteca Pública Municipal a desvendar os livros. Alguns conseguia ler na própria biblioteca, e outros trazia emprestado para casa, no entanto, tinha que devolvê-los no dia seguinte. Assim, quando anoitecia levava um tamborete de madeira para o pé do poste, onde passava a iluminação elétrica que era na calçada vizinha a minha casa e me sentava no chão, punha o livro em cima do tamborete e viajava na leitura até minha mãe me chamar para entrar. Deitava-me na rede e fingia que estava dormindo, porém quando todos adormeciam eu ia para a mesa onde ficava a lamparina e punha-me a ler até a última página do livro.
 
Esse novo mundo me fez conhecer universos que até então não existiam para mim, como também me fez entender as ‘estórias’ que minha mãe contava, despertando assim o gosto em escrever minhas próprias histórias, transformadas em diários - segredos juvenis que não ousava compartilhar com ninguém. Como também, meus medos e sonhos que pareciam distante da realidade na qual vivia. Entretanto sempre fui uma boa aluna, a vontade de crescer e descobrir meu próprio mundo era algo que ansiava tanto que aos quinze anos de idade entrei para o grupo de jovens da Igreja Católica da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, onde comecei a fazer uso dos meus dons, com a ajuda do seminarista João Batista Chaves da Rocha. Assim sendo, passamos a realizar alguns jograis durante as missas com temáticas religiosas e, também, participava dos movimentos sociais ligados à terra, dentro do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e realizava atividades educativas tendo como recurso a arte dramática. Eu e o seminarista João Batista saímos dos jograis e passamos a montar peças teatrais, escritas por mim. Fundamos o Grupo de Teatro Amador Axé, foram dez anos de experiências, amizades, laboratórios (oficinas teatrais), viagens e apresentações. Enfim, a adolescência passou e cada componente do grupo foram vivenciar outros projetos de cunho pessoal. A partir de então me tornei escritora, cursei Letras na UFRN – NESA – Núcleo de Ensino Superior do Agreste, na cidade de Nova Cruz, onde tive a honra de ser aluna do Professor Humberto Hermenegildo que me ajudou a reelaborar a escrita, a desvendar a poesia, a conhecer a literatura Potiguar e os nossos escritores como Luís da Câmara Cascudo, passando a ver que minha mãe tinha muita razão. Depois que conclui Letras cursei Psicologia, na UFRN, em Natal e até os dias atuais venho fazendo pontes entre esses dois saberes.