Entrevista com Fernando Sousa Andrade, que lança novo livro de poesias dia 19

10/07/2018

Por: Cefas Carvalho
Foto: Arquivo pessoal
Jornalista, crítico literário e poeta carioca bastante conhecido pelo blog literário Ambrosia, pelas resenhas literárias e pela dedicação com que se embrenha a garimpar pérolas literárias recentes, Fernando Sousa Andrade, 50 anos, lança seu novo livro de poesias, "A perpetuação da espécie" (Editora Penalux), com projeto gráfico arrojado de Murilo Guerra, apresentação de Vanessa Maranha e posfácio de Marcelo Nocelli, no dia 19 de julho, às 19 horas no Espaço Oito e Meio, no Rio de Janeiro. 
 
Autor de quatro livros de poesia publicados, participou também de duas coletâneas de contos de um coletivo de literatura Clube da leitura, é colaborador do site de arte Caneta Lente e Pincel, Fernando concedeu entrevista para o Portal Potiguar Notícias, onde falou de seu mecanismo de produção, particularidades do novo livro e literatura de maneira geral. Confira:
 
O livro tem um conceito visceral de relação pais-filhos. Como foi escrever com base neste viés conceitual?
 
Fui perceber através do poema prole que ali poderia ter uma história à contar, pois o próprio poema já é em si uma vida meio condensada de uma exílio,  talvez de um homem desencaixado da vida e das relações sociais.  No decorrer da edição do livro que eu próprio ia fazendo, percebi que os poemas tinham certa unidade temática com este poema inicial. Apareciam muitos rebatimentos como mar, rio, árvores, frio.  Haviam 4 poemas sobre infância, outros carregavam uma visualidade imagética. E o poema que falo sobre o corpo que tinha o último verso "a perpetuação da espécie", e um outro que falo do que é ser homem num mundo líquido como diz Baumann, e minhas próprias emoções que tenho com relação à família, já que havia falado de núcleos no livro Poemometria, ( meu segundo) resolvi fechar este novo livro com está posição de debate sobre laços familiares. Pois acho que o livro que escrevo é um pouco uma reflexão sobre o que é gêneros dentro de um contexto nucleado familiar.    
 
 Trata-se de um livro de poesias autobiográfico, parcial ou totalmente?
 
Não, talvez  uma certa posição filosófica de ver o mundo familiar de fora, e me sentir sempre dentro do contexto como um observador mais do que um participante. Este grau de isenção talvez tenha sido  o mote para escrever sobre como é individualizar dentro de grupos, núcleos. Como ter uma fala, um discurso sendo ou estando incluído dentro de uma linguagem normativa que legitima uma norma ou tipo de adequação à comportamentos padronizados. Os poemas são livres e distanciados da minha experiência biográfica. Mas carrego com eles um certo pertencimento - questionador sobre por exemplo respeitar todas as formas de sexualidades, de convivências. O poema 34 visualizo um experiência sutil de relação afetiva entre duas mulheres.
 
 A dedicatória para seu pai e sua mãe é uma homenagem? Reconhecimento? Nostalgia?
 
Foi uma gratidão e reconhecimento pelo processo de maturação que se foi fazendo-formando o Fernando durante a vida.
 
 O projeto gráfico de Murilo Guerra envolve rabiscos em todo o livro, gerando um efeito belíssimo. Trata-se de uma alusão á escrita infantil?
 
 Não. Não tive esta intenção de passar este conceito. Queria apenas que o corpo de um homem fosse feito de linhas, soltas, ou agitadas e que pudessem dar uma ideia de maleabilidade de fluídez que o corpo não fosse fechado, lacrado.
 
 O livro é dividido em 5 partes. Quais os critérios para a divisão? Temáticos? De estilo?
 
Que a divisão pudesse dar a ideia de uma vida transcorrida, de uma existência  temporal descontrolada,  que não houvesse uma linha cronológica certa tipo infância - adolescência -vida adulta. Queria uma linha quebrada de sucessão temporal por isso botei duas seções que mexiam com o passado tipo lembranças e imagens para dar uma desconexão na linha da vida deste homem.
 
 Como é seu processo de escrita? Espera a inspiração chegar ou acredita que escrever é transpiração e disciplina?
 
Acho que a inspiração me afeta muito pouco, apenas na questão de visualizar certa imagem precisa no começo do poema. Mas depois é trabalho árduo de escrita, de encaixe, de revisão. Olhar  o poema com o olho de terceira pessoa. Quando você escreve, sua imersão é completa. mas ao ler, a distância lhe confere um certo exercício crítico.
 
 O livro parece ter um tom pessimista, ou de desilusão com o Mundo. Foi proposital?
 
Acho ele dual. Não pessimista. Ele carrega uma certa posição filosófica do homem perante à si mesmo. Cadê? os demônios do homem. Existem?  Queria colocar o gênero masculino talvez na berlinda rs.  Ele cabe? dentro de um escopo social? Ele pode ser um ser que se liberta de grilhões machistas e imperialistas.
 
 No posfácio, o escritor Marcelo Nocelli comenta que "assim como a perpetuação da espécie humana, para o bem ou para o mal, não há finitude prevista neste livro." Essa é a intenção da literatura, não ter finitude?
 
Acho que ele quis dizer no sentido que eu não fecho respostas para nehuma das questões que levanto. Que as camadas do livro são tão livres de posições de leituras que possivelmente cabem inúmeras leituras, não se esgotando rápido numa única leitura. A poesia talvez tenha esta riqueza de ter possibilidades de captar sentidos de acordo com o olhar do leitor e sua experiência.